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Tempo para rezar

28.05.14

Temos sempre muito para fazer. Nem sempre nos lembramos de Deus e muito menos nos organizamos para rezar, dar graças... Também não quer dizer que o façamos por mal. Há amigos do peito com quem também não falamos todos os dias.

Quase sempre a oração é feita em momentos de angústia, em que levantamos os braços aos céus em desespero. Nesses momentos não queremos ser esquecidos por Deus e a oração sai-nos do coração num grito quando antes nem murmurávamos.

Quando era pequena gostava mesmo muito de rezar. Depois passei alguns anos em silêncio. Não foi um silêncio revoltado, totalmente descrente ou propositado. Achava que guiava a minha vida e não procurei mais nada que lhe desse algum sentido maior.

O Manel nasceu e muita gente me disse que o Papa Francisco afirmava que Deus dava as maiores batalhas aos seus melhores soldados.

Acontece que eu não me alistei... Não foi uma escolha minha ser guerreira e por isso não mereço esses elogios.

Seja porque motivo for, a minha vida tornou-se uma batalha. Os dias são de Sol ou de chuva. É-me mais fácil distinguir o que é um grande problema e um pequeno problema.

Passei a rezar mais. Em alturas em que o medo se apodera, já dei comigo a conduzir sozinha até Fátima. Para ganhar forças que não tenho, para libertar o medo quando o medo me duplica. A oração tem-me ajudado a encontrar alguma calma, algum sentido. Por isso não tenho dúvidas em confirmar a sábia frase do nosso querido Papa Francisco: às vezes na nossa vida os óculos para ver Jesus são as lágrimas.

Em Fátima escutei num terço alguém dizer que podíamos ter algum tempo para rezar se o fizéssemos logo pela manhã, no carro, a caminho da escola. Nessa altura poderíamos rezar em família.

Passei a rezar no carro e o Francisco acompanha-me. Muitas vezes pede para o Manel ficar bom da "risca" da cabeça e outros dias pede para não fazer birras na escola e para não se esquecer de trazer folhas para os bichos da seda.... O Francisco passou a querer rezar e muitas vezes é ele que me lembra. O curioso é que em Cuba, logo na primeira manhã em Havana, assim que entrámos no carro do nosso guia o Francisco perguntou se não rezávamos ao Jesus. Tive muito orgulho nele!

Deixo-vos aqui um desafio, rezarem pela manhã no carro com os vossos filhos... um momento em que pensamos juntos no bom dia que queremos ter e agradecemos estarmos juntos para viver mais um dia!

Depois contem-me como foi!

 

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Nasci e cresci convicta que João Paulo II era o meu Papa e foi estranho vê-lo envelhecer e perceber que um dia o Papa seria outro. Bento XVI assumiu o papel e parecia-me tudo estranho... A expressão do rosto não parecia tão terna e apesar das mensagens tão inteligentes não deixei que tocasse o meu coração da mesma forma. O Papa Francisco já surgiu depois de algum tempo desse luto e a sua simplicidade rendeu-me logo. Um Papa enérgico, humilde que prescinde dos sapatos vermelhos e de outros luxos. Mas continuo persistente a pedir graças por intercessão de João Paulo II. Sinceramente não rezo o suficiente para ser digna de um milagre de cura para o Manel. Mas pequenos milagres podem fazer muita diferença... E não perco a fé! Quando tenho medo (e o medo assola-me de tal forma certeira e rápida que mal respiro de angústia esmagada do receio no futuro que não controlo) penso nas palavras deste Santo: não tenhais medo! Não posso ter medo porque se o medo me vence eu morro já sem esperança e desolada. Ter o privilégio de ter crescido com um Papa Santo terá de me ajudar a não ter (tanto) medo e a acreditar nos Santos do nosso tempo.

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O relatório

06.03.14

Ontem li um relatório sobre o desenvolvimento do Manel.

 

Os relatórios são sempre naturalmente objectivos e sintéticos. O relatório refere-se ao Manuel e tinha como finalidade cristalizar àquela data as evoluções e as competências adquiridas e estabelecer novos objectivos.

 

É sempre bom pensar em novos objectivos mas ler a frio os apontamentos de incapacidades, dificuldades, lacunas, fraquezas, falhas de aquisições é como colocar desde logo o dedo na ferida, antes de nos concentrarmos em sará-la.

 

Todos os dias lido naturalmente com esses handicaps e consigo ser feliz. Mas ler tudo resumido num par de folhas encolheu-me o coração a cada saltar de parágrafo. Tudo o que está escrito é a mais pura e crua verdade, que nem desconhecia mas simplesmente não encarava de forma tão objectiva.

 

O Manel tem feito progressos e sem dúvida que o seu desenvolvimento até supera as expectativas de quem analisa a sua ressonância cerebral tão evidenciada de inúmeros tumores.

 

Mas há dias em que o coração se encolhe e quase se cega perante os pequenos milagres. São os dias em que lidamos com os exames que chapam a preto e branco as deficiências, os relatórios que apontam as incapacidades (apesar de no final referir evolução positiva e reforçar a aposta na terapia).

 

Nestes dias apetece abrir a janela e deixar voar os papeis com o vento, como quem quer afastar os problemas e não ter de se importar em ter forças e coragem para lidar com as objectividades mais crueis da vida.

 

Talvez abra a janela, não para fazer voar os papeis mas apenas vaguear ideias. Já me conheço. Hoje sinto-me mais vulnerável, mas estes dias são necessários e ligam-me à terra (e ao céu nas orações), como um respirar fundo antes de mergulhar nos dias que se seguem.

 

Até amanhã!

 

 

 

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Bebé Milagre

06.02.14
Hoje foi dia de regressar ao Hospital para consulta de neurocirurgia do Manel.


Ali reencontro uma sala de espera cheia de pais mais impacientes que os filhos (a maioria entretida com tablets para meu reparo de era moderna).

Pela primeira vez tirei o Manel do carrinho (não para o embalar no colinho) mas para circularmos juntos de mão dada pelo corredor do Hospital. Senti-me verdadeiramente orgulhosa... das outras vezes o Manel esperava sem se importar muito em explorar muito em redor. Agora não.


Então noto, sem conseguir evitar, os Pais que segredam algo quando o Manel lhes passa em jeito aparentemente inseguro (para quem não sabe das novas conquistas, tudo se resume a atraso assinalado em risca). Mas, calma, não me beliscam os segredos porque eu estou mesmo orgulhosa dos passos dados e dos sorrisos das enfermeiras que o elogiam pelos progressos.


Encontro um miudo de capacete de rugby na cabeça. Suponho que tenha sido operado como o Manel e troco impressões com a Mãe para saber onde adquirir um igual (modelo giro, que fez parecer o capacete daquele guarda-redes famoso). Conversamos as duas alegres ao partilhar histórias de melhorias e de dicas de capacetes para filhos radicais especiais.


Entramos na consulta e a Médica recebe-nos com um abraço e instantaneamente pega no Manel ao colo, feliz por vê-lo. Confio cegamente nesta médica que me cativa pela segurança e por este jeito sincero de cuidar do meu filho. Não é Médica de se limitar a tirar notas atrás da secretária ou a fazer medicina de bisturi na mão, analisa o comportamento do Manel com carinho e afeição para o tratar melhor.


Entre risos confirmamos as imagens da ressonância e uma outra médica ali presente não consegue disfarçar o choque de embate na imagem. São mesmo muitos tumores e vê-se bem a zona de extracção, comenta espantada.


Sim, sim respondemos, o Manel tem muitos tumores. E continuámos entretidas (sem dar importância ao comentário que não é novidade nenhuma) a contar, não os inúmeros tumores, mas as novidades do desenvolvimento do Manel, até que Dra. C. conclui:

O Manel é um bebé milagre. Quem olha para a ressonância e não conhece o Manel, nunca diria que ele estaria assim tão bem hoje.


Rezei muito pedindo o milagre da cura do Manel por intercessão de João Paulo II. Muito mesmo, seguindo uma oração oficial do Vaticano pedindo graças para santificação do Papa João Paulo II (não podia arriscar pedir um milagre por portas travessas ou preenchendo formulários errados para o efeito).


OK, não houve cura desta doença que conviverá sempre connosco. Mas acredito neste milagre de ver o Manel ser capaz, mesmo para além das suas capacidades acorrentadas em tumores. E saio feliz, mesmo escutando novamente que o Manel tem muitos tumores.


Pois sim, é verdade. Mas também é verdade que podiam esses tumores estar activos em fogo cruzado de energias epiléticas e para já não estão... e não sabendo eu nem ninguém se este cessar fogo está por horas, dias ou anos, quero aproveitar este pequeno grande milagre. Quero deliciar-me com as conquistas que agora nos concentram esforços e contradizem os prognósticos mais óbvios e pessimistas.


Agora só quero ser feliz, obrigada! Estou feliz e daqui a nada já comemoro a extracção do tumor porta-aviões com um chocolate.


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Celebra-se hoje o dia mundial da luta contra o cancro.

 

Tenho muito medo dessa doença que sem ser contagiosa parece estar em toda a parte e já minou tantos dos meus familiares e dos meus amigos.

 

Todos lutam e o que mais me entristece é saber que é uma luta incerta e injusta. Nunca são certos os vencedores e os prémios da vida parecem sair em tamanha lotaria, tal qual o jogo de azar que lhes trouxe a doença. É um verdadeiro milagre se acontece a confirmação de uma cura.

 

São muitos os que vi perderem a vida, mesmo tendo lutado com todas as forças. Mas o que mais importa é que nenhum deles se arrependeu da luta e nos deixaram a lição de um sorriso e de uma esperança que não morre na enorme força de batalha que hoje se quer mundial.

 

Por vezes até parece que lidaram com a doença melhor do que nós, aceitando, rindo quando tinham forças para rir e lutando sem questionar muito "o porquê eu?" enquanto nós perdemos muito tempo a pensar "porquê aquele?".

 

Lembro-me do António Feio rindo. Lembro-me das palavras da Mãe Vanda contando o sorriso do seu filho Paulo para a tranquilizar no dia antes de partir.

 

Não esqueço as lágrimas da Daniela chorando depois das lutas os lutos sucessivos da mãe e da irmã.

 

Tenho saudades do meu Avô André que nem conheci e que o Francisco e o Manel tenham também perdido assim a Avó Luísa.

 

Hoje assisto a um Padrinho a quem o Médico já não programa mais sessões de quimioterapia. E o meu Padrinho está feliz e sereno, sem medo de morrer numa lição de vida eterna tão natural como quem não tem medo do escuro durante a noite.

 

Mas eu tenho saudades e tenho medo. Quero ter fé sem me perder nos porquês.

 

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Não é suposto

22.01.14

Não é suposto perder um amigo de infância

Não porque nos zangámos ou amuámos

Nem por deixarmos de falar ou importar pela falta do tempo de a amizade reatar.

Não é simplesmente suposto que gente nova morra

Seja lá do que for e como for

Porque o que foi não é suposto

Nem permite o recurso ao recorrente falso consolo que aconteceu por ser suposto.

É pois impossível não sentir que a doença vulgarmente conhecida por prolongada

Não se prolongou afinal assim tanto

Nem sequer o suficiente para permitir um contra-ataque

E desonesta levou a melhor, mas não o melhor do meu amigo

Porque o melhor vive ileso na alma que não adoece nem padece

E a alma do meu amigo é tão forte que não se esquece.

 

Não se perderá jamais a memória de um amigo

Que nasceu exactamente no meu dia

Deixando-me agora o destino as velas a arder

Sem a alegria presente do seu sopro

E a tristeza de as velas agora serem só minhas

Sem eu nunca conseguir apagar esta saudade que me consome.

Não é justo, não é suposto!

 

Rezo por ti e para entender o que não é suposto

O que acontece contra os nossos relógios, as nossas vontades e as nossas balanças de justiça.

Rezo para tentar acreditar mais e ter alguma paz nessa fé de vida eterna do céu

Onde já moram poucos mas alguns dos meus mais jovens amigos.

Descansa por momentos em paz no céu

Mas depois sorri e encanta os que aí encontrares

Como tão bem nos alegravas por cá.

Talvez o céu precisasse urgentemente de ti e de gente extraordinária como tu

E não apenas dos que naturalmente e supostamente vão morrendo.

Olha por nós que te procuraremos nas lembranças e nas estrelas mais acesas

Podendo quem sabe esse nosso olhar cruzar-se na saudade. 

 

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Esta manhã tive o privilégio de assistir aos muitos sorrisos das crianças na festa de Natal do Serviço de Pediatria do Hospital São Francisco Xavier.

 

Hoje não me apercebi dos cheiros típicos e das aflições pois sobressaíam os balões, os risos, as canções, a descontracção de enfermeiros de folga desfardados acompanhados dos filhos que desfaziam diferenças entre meninos doentes e saudáveis... todos juntos batemos palmas numa pausa de festa entre companheiros de guerras.

 

Distribuem-se presentes (um muito Obrigada à contribuição da Farmácia Morais Sarmento pelos presentes oferecidos aos bebés) abraços, beijinhos aliviados, felicitações...

 

E no final não resisti a regressar à capela.

 

Senti que depois de tantas orações choradas, hoje era dia de dar Graças por este Natal tão merecido! Faz-me muito bem ter boas recordações de festas e risos para colar em cima das sofridas imagens ainda tão gravadas na memória.

 

Ainda bem que a minha querida sobrinha Maria me acompanhou, pois tornou-se mais fácil não chorar emocionada e apenas sorrir de tão feliz nesta visita...

 

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Durante a tarde recebi um telefonema da escola do Francisco.

 

O rapaz insistiu muito para me darem o recado que queria vir ao Hospital. No final da tarde foi cumprido o desejo.

 

Logo no início da ala da pediatria, o Francisco gritou a correr:

- Manelocas aqui vou eu!

 (o quarto do Manel é o último ao fundo do corredor)

 

Os manos reencontraram-se radiantes, conseguindo ter mais liberdade e raio de acção graças ao cateter que já não emplastra o Manel.

 

Depois de brincar às escondidas com o Francisco, o mesmo suplica-me para irmos dar um passeio pelo Hospital. Fiz um enorme esforço para pensar quais seriam os corredores  mais atractivos e menos traumáticos nesse itinerário.

 

Foi então que me lembrei da pequena capela do Hospital. Assim que lhe perguntei se queria ir à casa do Jesus, o Francisco pôs-se logo de pé a puxar-me a mão. O importante era irmos a algum lado.

 

Na capela, o Francisco pediu ao Jesus para os Médicos amanhã deixarem o Manel ir para casa, acrescentando um pedido para ser um bom amigo.

 

À saída espanta-me ao enviar com a maior naturalidade e de mão no ar um beijinho a Nossa Senhora.

 

Já andávamos nós a explorar outro corredor nas imediações da capela, quando de repente o Francisco me informa que se tinha esquecido de pedir uma coisa ao Jesus e por essa razão teríamos de lá voltar.

 

Abriu sozinho a porta pesada da capela, sentou-se e pediu em voz baixa ao Jesus para o Manel não voltar a ficar doente e nunca mais ter de voltar ao Hospital.

 

Tenho uma enorme esperança que o primeiro pedido seja prontamente atendido.

 

A concretização do segundo pedido seria um milagre, no entanto, deveremos ficar atentos... nunca se sabe!

 

De qualquer forma, já me comoveu a intenção tão pura, sincera e protectora do Francisco.

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Pai Nosso,

 

É-me tão difícil entregar-Te as minhas angústias e o meu cansaço.

 

Quero acreditar que existes, que Te adoro, mas deveria então saber confiar em Ti como um filho pequeno que dá a mão ao Pai para se sentir seguro, aconchegado e apenas isso lhe basta.

 

É fácil aderir em tese aos teus princípios de amor, pois em escritos tudo parece certo e belo.

 

Mas quando a vida segue em movimento calmo e não pára nos livros, tantas vezes creio ser eu no rumo de tudo, reconhecendo-Te pouco nessa rotina suave que me leva a esquecer-me de Ti e a nem falar contigo. Se aos meus olhos tudo parece bem, quase não me socorro de Ti e não rezo o quanto gosto de Ti.

 

Se tudo se agita, revolto-me, peço perdão, suplico e não consigo gerir bem a demora no atendimento dos meus pedidos. Impaciente, desesperada, não consigo confiar na mensagem de não ter medo. Muitas vezes tenho mesmo medo de não estares aí  e nem me dou conta que posso estar no teu colo, como na história das pegadas na areia.

 

Não entendo porque a vida às vezes me parece uma prova de força desleal ao meu tamanho e duvido que Te queira entregar a parte difícil, com medo que o teste fique afinal em branco.

 

Sinto-me então como uma adolescente que desafia o Pai e discute, como se achasse que tem razão, falando tão alto que nem dá hipótese para se escutar mais nada para além de si mesma.

 

Invejo quem tem uma fé segura, quem confia sem tantas reservas, é capaz de Te ver todos os dias.

 

 Os meus filhos consigo amar, sentir todos os dias que os adoro, que me guiam a vida em objectivos de amor puro, fácil que não amua ou se abala com qualquer decepção ou prova difícil. Posso superar qualquer internamento, falta de sono ou forças, desde que esteja ao lado deles para os proteger e mimar. Neles consigo ter a esperança de um amor infinito, que não passa por estados de espírito por ser cada vez mais sedimentado e alimentado.

 

Pai Nosso, espero sinceramente que estejas no coração do Francisco e do Manel para receberes um pouco desse meu amor sincero e incondicional.

 

Espero a passo e passo conseguir ver-Te noutros corações e que me vejas com o mesmo amor que eu tenho pelo Francisco e pelo Manel.

 

Começo a não conseguir ignorar que existes, que me deixas mensagens, mas quero ser capaz de Te amar até ao Céu e confiar.

 

Amen

 

 

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Ontem à noite consegui finalmente soltar a primeira lágrima que concentrou as emoções destes dias. Talvez fosse mais terapêutico ter chorado um bocadinho a cada dia, mas não ando de lágrima fácil. Aconteceu num abraço de despedida à mana que viajaria nessa noite para o outro continente mais a Sul, num agradecimento tão grande por este voo voluntário que demonstra que as aves migratórias sabem voltar a casa na época certa. Foi muito bom quebrar a espera até ao Natal para a ter aqui neste entretanto a dar-me colo a mim e ao Manel.

 

Entretanto, o dia de hoje (o que tinha apostado ser o dia do take off da febre) afinal não foi fácil, somando mais alguma temperatura em pico e outras complicações.

A forma como encaro o hoje é um olhar para uma carta mais do internamento que nunca se vê só mas como resulta e combina com as outras. Estou sempre à espera de um trunfo, do virar do jogo, mas ainda nada. Pode ser que amanhã, talvez.

 

Ontem e anteontem também esperava pelo amanhã e surgiu sempre alguma complicação.

 

Sinceramente ajudava se eu tivesse mais fé e a capacidade de entregar a Deus o que fosse do amanhã, sem me preocupar. Mas não vos minto. Não tenho essa capacidade.

 

Rezo, depois zango-me, volto a rezar. Pareço uma garotinha que puxa as saias da Mãe a pedinchar, a pedinchar e se não sou logo atendida faço birra desta fé pequena.

Quando estou ansiosa com a febre até penso, ontem andei eu a rezar o terço para isto?! Eu nunca rezava antes, mas por motivação do Padre António, ousei fazê-lo caindo no ridículo de usar a internet do telemóvel de noite no Hospital, para verificar a ordem e quantidade de Pai Nossos e Avé Marias (decidindo que nesta primeira fase não faria meditação dos mistérios, até ganhar calo para avançar para a oração completa). E à primeira subida de temperatura revolto-me e acho que tudo isto já é demais para eu aguentar assistir e resistir. Decidi parar com os meus terços improvisados no Domingo.

 

Hoje, depois do jantar no refeitório do Hospital, seguia pelo corredor desanimada… a pensar no que foi e no que eu não sei e virá.

 

Posso parar os terços e orações, mas pouco depois descubro-me desanimada, sem alívio dessa ruptura. E olho para a cruz ao fundo do corredor, sabendo que é a porta da Capela. Neste internamento ainda não tinha ali entrado. Pensei num impulso, não vou perder tempo… não adianta. Mas a fé pequena ainda assim pôs-me lá dentro. Ninguém a rezar e eu senti-me confortável naquele cubículo menos frio que o resto do Hospital, vazio de gente como se de propósito, para que eu não me sentisse envergonhada da pouca fé que até ali me moveu.

 

Nem sei porquê mas fui directa à Bíblia aberta com leitura do dia e li o seguinte da Carta de Romanos:

Irmãos: Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós.
(…)
De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver?
Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.

 

Leio esta Carta e arrepio-me… parecia ali aberta de propósito para mim, para me ensinar em poucas linhas, o que é a esperança e a paciência, sem condenação pelos meus desligamentos.

 

Hoje volto à oração, mesmo que não saiba se é já amanhã o dia em que tudo melhora.

 

 

 

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Vigília

24.10.13


No final da longa espera em que nas últimas horas já não consigo descolar os olhos do relógio para ter a certeza que o tempo avança, ouvi finalmente a porta do bloco abrir e esbugalhei olhos e ouvidos às boas notícias sobre o que eu não vi lá dentro. Mas as boas notícias não chegam para o meu sossego, quero ver-te.
Sais pálido como um boneco de cera mas sereno e tão lindo. Já não sou capaz de parar de te olhar para adivinhar sinais. Se consegues mexer um braço ou perna, se tens forças, dores.
Agitas-te e eu contigo. Respiramos os dois mas isso só não basta.
Quando abres os olhos tento que me procures e falo-te baixinho para me encontrares nesse reconhecimento. Ainda estás zonzo como eu. Tenho que te dar tempo.
Passado um instante dou-te um pouco de chá pela seringa e bebes como um pintainho sedento.
Aguardamos.
Depois passamos ao teu leitinho e tu surpreendes-me com a tua força segurando o biberon como se tivesses o mundo entre mãos! Fazes-me sorrir tanto!
Mas depois vem a agonia e vomitas e eu tento estar firme que são complicações normais (repetindo cem vezes para mim que é normal para interiorizar isso).
Agora espero-te novamente e ficarei aqui sempre ao teu lado para te amparar.
Tento esquecer os pensamentos sobre as tantas desaventuras da anterior cirurgia mas não consigo viver sem essa sombra de medo. Preferia não ter esse passado presente para agora ser capaz de festejar tão só que te devolveram vivo.
Preciso rezar para pedir mais fé. Pedir que eu seja capaz de entregar a Maria este sofrimento.
Fecho os olhos e lembro-me do que li em Fátima:

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16.10.13

Ontem vi um post no mural do Facebook do Padre António que anunciava a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima por Carcavelos, no dia 17.

 

Hoje passei de manhã na igreja para pedir que nas intenções dessa missa do dia 17 o Manel fosse incluído (continuo sempre com aquela sensação que só as minhas orações não bastam e para este problema tão colossal preciso mesmo de um batalhão de gente a implorar ao céu).

 

Quando a Senhora do atendimento me perguntou por quem pedia essa intenção, respondi que era pelo meu filho que ia ser operado à cabeça no dia 24. A Senhora levantou a cabeça e olhou-me com os seus olhos idosos inundados de lágrimas. Respondeu-me que o filho dela foi também operado há um mês para extrair um tumor (aquele horrivelmente maligno ao contrário do Manel, que é benigno de qualificação apesar de tão malvado). Percebi logo que aquele filho que me falava a Senhora era afinal irmão de uma amiga dos meus Pais que muito reza pelo Manel e até me ofereceu uma relíquia de João Paulo II. Há dias tinha trocado emails com a filha daquela Senhora, prometendo lembrar nas minhas orações aquele irmão e o meu Manel.

 

Sorrimos pela coincidência, envolvemo-nos num abraço tão espontâneo de consolo mútuo  e choramos juntas, apercebendo-nos que os nossos corações (um tão jovem e o outro tão preciosamente antigo) se sobressaltam exactamente com o mesmo ritmo de aflição de Mãe… e foi tão reconfortante.

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O mês de Novembro de 2012 foi completamente intenso e esgotante. A cirurgia para extracção de um tumor cerebral foi marcada para meados desse mês e a cada crise que assistia, suspirava com pressa pelo sucesso dessa operação, apesar do medo de a enfrentar.

Há uma sensação muito estranha que nos ataca nestas situações, sabemos que o melhor é avançar, mas quanto mais corre a areia do tempo, mais se aperta o coração com medo e nos tomam de assalto pensamentos de vida ou morte. Se o Manel morrer como explico tudo ao Francisco? Como vou ter coragem de arrumar as coisas? Será que estes são os últimos banhos e biberons que dou ao Manel? Se correr mal, tiro ou não tiro as fotografias espalhadas pela casa?

Estes medos não são fáceis de dividir com os outros. Não se quer preocupar família e amigos que também andam cabisbaixos e receosos. Assim decidi partilhar estes temores com um médico, pois comecei a sentir que era melhor recorrer a essa ajuda, antes mesmo de enlouquecer. Cheguei à consulta muito despachada, mas olhando para as pessoas da sala de espera fiquei um bocadinho apavorada (será que esta gente já ensandeceu?). Peguei numa revista e tentei convencer-me que estava ali de prevenção e não para recolher um saco de medicação e um atestado de loucura, nem valia a pena olhar para o lado sequer.

Depois de me sentar no divã deu-se finalmente um efeito automático de choro compulsivo que me enervou… (pensei para mim: controla-te já senão ainda entra aqui um senhor com um colete de forças para te levar direitinha para o hospício). Devagarinho comecei então a contar que a doença do Manel me tinha explodido sem aviso, como alguém que pisa um campo de minas sem saber ao que ia. Consegui explicar os meus medos e perguntei se era afinal normal ter estes pensamentos horrendos, quando sempre fui uma pessoa tão optimista. Não é que pensasse a toda a hora que tudo ia correr mal, mas não conseguia controlar que, de vez em quando, me trovejassem raios de disparates a tentar queimar as esperanças. Havia porventura alguma técnica especial que os médicos recomendassem aos seus doentes desesperados pacientes impacientes? Descobri que tudo era normalmente gerido na minha cabeça tonta atendendo às circunstâncias e que, para grande decepção minha, não existem fórmulas mágicas de pára-raios. Processando isto pela positiva: OK não estás maluca, só estás triste o que é normal. Processando isto pela negativa: Não há cá truques maravilha para desviar tristezas, mas tomar um ansioliticozinho pode ajudar. Pedi ao Médico para não me entupir de comprimidos, já que tinha de continuar bem alerta para as crises do Manel e ter capacidade para tomar conta das crias sem ter um ar embaciado e zombizeiro.

Cheguei a casa com menos peso na alma (apesar dos problemas continuarem todos nessa balança) e decidida a continuar a dar conta do recado sem depressões e maluquices. Quando enfrentamos as doenças regulares das crianças, sofremos quando os vemos abatidos, mas tentamos logo adivinhar qual é o tempo médio de recuperação e preparamo-nos para combater esses dias de maleita. Mas quando a doença que enfrentamos não tem cura, não há qualquer alívio de resolução a prazo e até cresce a ansiedade que tudo se pode complicar e muito.

Não me valia de nada ganhar o euromilhões, solicitar um dador de um órgão, só podia mesmo era implorar para que rezassem pelo Manel e.. quem sabe, um milagre até podia mudar as nossas vidas.

Comecei então a criar uma corrente de oração pelo Manel, por intercessão do Papa João Paulo II. A fé pode ter uma força que move montanhas e uma Mãe, como no meu caso, até sente que vai ao espaço se de lá pudesse trazer a cura. Havia gente que eu não conhecia mas que me dizia estar a rezar pelo Manel, o que é extraordinário. Para além da freira da bolacha, rezam pelo Manel as freiras de um Mosteiro de Sesimbra (que o conheceram e encheram de miminhos), de Lisboa, as Carmelitas de Fátima, freiras de Mosteiros em França e até no Brasil e Chile, bem como as equipas de Nossa Senhora (estas mobilizadas pelos meus pais).

Neste desespero, consegui falar com o Padre António da Paróquia de Carcavelos (um Padre que consegue encher uma igreja de gente velha e nova para escutar homilias que não dão vontade de dormir mas sim de mudar a nossa vida) que me aconselhou apenas a entregar o meu sofrimento a Deus, que isso equivaleria a muitos terços que eu em aflição nem era capaz de rezar. O Padre António consegue ser surpreendente na simplicidade do que diz e na forma como consegue entender e sossegar o outro, garantindo que rezaria muito pelo Manel e pediria a muita gente para se unir nesta oração.

Esta doença, apesar de terrível, conseguiu envolver muita gente em oração, desde os mais descrentes até às crianças que conseguem ter uma fé tão pura, sem interesses, nem conveniências ou desculpas. Houve uma amiga minha que me disse que as preces das crianças são como uma via verde para o Céu, fazendo-me assim sorrir e ter mais esperança, pois todos os priminhos do Manel rezam por ele, com os colegas da escola e até dos escuteiros. Decerto que essas orações já tinham passado a portagem do Céu, pelo que acreditei que seria tudo uma questão de processamento a seu tempo.

Podia estar triste, mas não sozinha.

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