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Setembro

11.09.14

Estou de regresso.

Passei os últimos tempos em projectos alucinantes misturados em loucura, coragem e paixão.

Às vezes é um pequeno impulso inexplicável que nos faz avançar. Deixar medos e comodismos e tentar arriscar por caminhos que sonhámos.

É fácil sonharmos. Todos temos vontades e gostos. Mas é difícil arriscarmos. Temos sempre boas desculpas para nos convencermos a deixar os nossos sonhos em papeis amarrotados secretamente nos bolsos. Ser Mãe de um menino especial podia dar-me uma excelente desculpa para levar os meus dias num quotidiano sossegado e apenas surpreendido por dias de hospital não desejados.

Só que esta doença incurável fez-me relativizar e perceber que a vida são dois dias que pouco controlamos. Não posso curar o Manel. Então devo sorrir a cada dia que o vejo sorrir. E devo mesmo procurar sonhar para provar ao Francisco que o Manel não nos limita, ensina-nos antes a sermos simplesmente mais felizes.

Ninguém me vai conceder uma segunda vida... uma segunda tentativa para viver sem a doença do Manel e apenas e tão só com tudo o que de bom eu seleccionasse desta vida. Se só tenho esta vida, não posso desperdiçar os momentos de maior estabilidade do Manel para ser feliz.

Obrigada por todas as mensagens nas quais me perguntaram pelas minhas crias. Os meninos estão de volta à escola e a uma rotina que para nós tem um valor de ouro. Não há dia que os deixe na escola sem deixar de agradecer a Deus por estarem ali os dois, juntos, sem ninguém no hospital. E as férias, apesar de muito curtas, tiveram direito a idas ao mercado, abraços de água salgada, passeios de barco, castelos na areia, brindes, risos e sangrias ao luar. Não precisamos de muito mais.

Sejam também muito felizes!

Estou de regresso.

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A cidade de Havana marcou-nos. Não é uma cidade que orgulhosamente exiba um património recuperado. Infelizmente encaramos Havana com muitos edifícios belos mas gastos e degradados que apenas nos permitem adivinhar um passado esplendoroso e rico. Os automóveis clássicos circulam por todo o lado dando movimento ao passado e comprovando que a mecânica tem capacidades de ressurreição. Ainda assim, a cidade encanta-nos pela música, pelo contraste entre o moderno e o antigo e um povo que vive a sua cidade e a anima. As pessoas são pobres, mas instruídas e alegres. O calor e a vista mar são antidepressivos natos e ninguém aparenta um ar ansioso ou apático. Na marginal de Havana (Malecon) há sempre gente. O nosso guia explicou-nos que os cubanos percorrem a pé aquela estrada marginal em todas as ocasiões da vida. Quando querem pedir uma garota em namoro ou romper com ela. Se um amigo de longa data está em Havana por poucos dias, é certo que o encontram ali no Malecon. Os velhos conversam horas a fio pelos bancos espalhados nessa avenida. Mesmo que um furacão atravesse Havana, garantem-nos que há sempre alguém que não se abrigou e escolheu assistir à tempestade em pleno Malecon. São histórias e cenários que não se esquecem e é de Havana que trazemos mais saudades.

Na praia pretendíamos apenas desfrutar do Sol e das águas quentes. Engraçado como nos submetemos a longas horas de voo para o Francisco nos dizer que o que mais gosta é da piscina. É miúdo e não ligamos, mas estranhamos tantos estrangeiros que preferem passar o dia inteiro na piscina a beber cocktails. O Manel mais uma vez delirou com a água e nem se zangava quando o mergulhávamos no mar. Tínhamos enormes expectativas de o pôr a andar na areia e assim desenvolver a marcha. Cair na areia só tem como consequência mascarar o Manel num mini croquete. Houve vezes que caiu redondo de cara na areia e nem boca nem pestanas ficaram a salvo. Uma banhoca no mar e estávamos prontos para mais. Infelizmente o Manel ficou doente, com febre, tosses e ranhos. A febre apareceu como se tivéssemos de enfrentar um furacão. Trancados no quarto, desesperados. A médica apareceu e confirmou que seria gripe, a que os cubanos gostam de chamar catarro. Ora pois que a nossa formiga apesar de nem fumar charutos, apanhou catarro em Cuba. Temos uma sorte! Apeteceu-nos fugir de imediato para Portugal. Não gosto de febres, seja em que sítio for mas no estrangeiro assustam-me mais. E se isto fosse o início de mais uma bronquiolite? Íamos ficar ali presos em internamentos em Cuba? Escolhemos esse país para irmos descansados quanto a medicina, mas não queríamos de todo ter uma experiência hospitalar. Férias=Descanso. Ninguém pediu a febre, podem por favor levá-la de volta?

Uma desgraça nunca vem só e eu fiquei durante 7 dias a chá, pão e soro bebível.  Sim que uma pessoa perde toda a dignidade quando vai ao médico queixar-se que não consegue ter um raio distante da casa de banho... isto numa senhora parece mal. As senhoras não deviam padecer disso. Os puns das senhoras deviam ser sempre inodoros e não audíveis e toda a gente sabe que as senhoras nem cocó fazem. Por isso cheia de boas maneiras tentei explicar com eufemismos a minha maleita e o médico do hotel não vai de modas e diz-me que uma injecção é o melhor remédio. Preparo o braço e diz-me que não, tem que ser na nádega. Enquanto me viro contrariada e a sentir que bati no fundo da dignidade e que não nasci para ser feliz (nem de férias nos intervalos da vidinha) sou avisada que a injecção tem 3 componentes. Um cocktail portanto, o único que consumi. É que nem um Mojito, nem uma Cuba Libre, nada, só aviei uma injecção de penalty! A estas férias devíamos descontar três intensos dias de maleitas minhas e do Manel. O Francisco conseguiu manter sempre o astral em alta e ficava histérico quando o mordomo nos trazia o jantar ao quarto. Tudo foi motivo de alegria para o Francisco. No último dia a febre foi embora e eu consegui ganhar raio de acção até à praia. É sempre assim... no último dia é que apanhamos o dia com mais calor, menos vento e água mais quentinha. .. aquele agridoce irónico das últimas horas no paraíso. No regresso o Manel teve um ataque de tosse de 3 horas antes de entrarmos no avião. Eu e o Rui conseguimos rir quando nos lembramos que enfim, em caso de necessidade, o avião tinha máscaras de oxigénio. Valha-nos isso. Enfim, tentámos ir longe para nos desafiarmos numa vida normal. Conseguimos chegar. Conseguimos ficar doentes. Conseguimos melhorar e regressar. Calem-se as vozes insolentes dos que avisam que viajar com crianças é uma loucura e já se adivinha que há sempre alguém a ficar doente. Quando ficámos doentes pensei que as férias tinham sido o disparate mais parvo a que me predispus. Depois no último dia ao dar um mergulho espantoso pensei que apenas tínhamos saldo negativo nas férias, mas não podia esquecer alguns momentos bons. Agora que já passaram mais dias recordo que as férias tiveram um saldo 50/50 entre o bom e o mau. Daqui a duas semanas já vou conseguir dar mais valor ao positivo e inverter as avaliações anteriores. Temos que nos distanciar em tempo do mau para valorizar o bom. Para o Francisco o saldo das férias foi do melhor. Adorou ver os golfinhos e a piscina. Na escala em Madrid até se atreveu a perguntar se o segundo avião que apanhávamos seria de regresso a Cuba. Enfim, vai uma pessoa tão longe com piscina em casa e golfinhos a 15 minutos no zoo de Lisboa. Havia lá necessidade! Se tiverem histórias de maleitas em férias, partilhem por favor que uma pessoa conforta-se sempre!

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As férias começaram cedo, numa daquelas manhãs em que despertamos de madrugada com vontade de saltar da cama e levantar voo. No aeroporto distribuímos abraços e beijinhos de saudades e partimos expectantes para perceber como as crias suportariam tantas horas de avião.

Assim que passámos a porta de embarque e entrámos no bus que nos conduziria até ao avião, o Francisco exclamou:

- Então afinal não íamos de avião para Cuba? Vamos de autocarro é? -  A gargalhada foi geral.

Uma vez fechadas as portas do avião, não há hipótese de mais fugas, e com mais birra menos birra, colos, lanchinhos, jogos, mil andanças para a frente e para trás no corredor do avião, chegámos. O Comandante avisa-nos que do lado de fora estão 29 graus e de imediato despimos camisolas para nos atirarmos ao calor.

O Francisco delirou com os tapetes rolantes em busca das nossas malas e por fim respirámos o ar quente de Havana. Apesar da noite cerrada, os faróis dos carros antigos animaram-nos e nas mil voltas para despacharmos toda a gente pelos hotéis aproveitámos para conhecer toda a cidade.

Na manhã seguinte o Francisco acordou feliz e animado e o Manel também partilhava dessa boa disposição.

Tivemos o privilégio de conhecer a cidade com um guia privado, o Eduardo. Um cubano com cerca de 55 anos, polido, educadíssimo, culto e um conversador nato. Mostrou-nos todos os cantos da cidade com enorme paixão, falando-nos não só da História, como também das histórias, dos costumes, alguns segredos e algumas opiniões proibidas. No final do dia sentimos que nos despedíamos de um novo amigo com confiança bastante para carregar o Francisco no colo.

Bastou um dia para mudarmos o chip e nos sentirmos longe, muito longe de tudo e muito perto de nos encontrarmos só os 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Todos gostamos das férias. De as planear e escolher destinos viajando entre brochuras, comentários dos que já foram e navegar por toda a informação que se encontre para tomarmos boas decisões e tudo parecer mais familiar quando se chega. Antes de ir já se viajou muito e quantas viagens foram feitas nesse sonho do ir sem sair do chão.
Nas vésperas começamos a sentir aquela contagem decrescente que dispara ainda mais a vontade de ir e nos enche de energia para riscar a passo rápido a lista dos pendentes. Um relatório que falta intervalado com uma ida a farmácia e a pedicure. Mil cuidados com roupa dos miúdos que vai sempre a mais e parece que nunca chega. Seja para onde for e lá vai também na bagagem o pacote das bolachas dos miúdos e o ridículo de levar o balde de plástico da praia que é tão importante como o protector solar.
E no dia de chegar ao aeroporto gosto de sentir que desta vez sou das que embarca e não fica a dizer adeus. Animam-me as filas do passaporte e até as revistas são feitas com paciência e vontade no ir. Gosto de espreitar os preços dos perfumes na freeshop e inventar sempre qualquer coisinha para comprar.
Adoro estes dias em que já sonhamos como será sabendo que haja o que houver (bom ao mau tempo, hotel mais ou menos espectacular) os dias serão nossos e por lá encontraremos musicas diferentes para escutar e para nos mudar o ritmo dos dias.
As últimas malas que fiz foram para o hospital. Tenho a certeza que esta estadia será bem mais agradável e com momentos para guardarmos nas nossas memórias de família... Entre mergulhos, visitas a cidade, graças e novos sabores!
Espero que estas férias marquem um novo ritmo... De agora sermos capazes de embarcar novamente em aventuras e não ficarmos presos a pensar em próximas cirurgias mas sim em reencontrar a família na festa de anos do Manel (este ano com festão e não no hospital o que justifica festa a dobrar) e na Páscoa!
Desejo encontrar agora um ponto de viragem para a vida em velocidade de cruzeiro no nosso regresso.

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Sol, mar e nós assim esparramadinhos a descansar dos mergulhos e da "canseira" dos almoços e jantares!

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Passaporte

10.03.14

Marcámos férias.... Xiiiuuuu não vão as doenças velhacas ouvir-nos.

 

No ano passado tínhamos marcado uns dias de férias em Valência, mas perdemos o avião devido a um internamento inesperado. Custa perder um avião, mas ainda mais quando aquelas férias tinham o significado de fuga para uma vida normal.

Desde o Verão que não gozamos férias e sentimos que não foi só o tempo que passou, foram dias que nos marcaram e envelheceram mais um pouco nas aflições daquela vida de hospital que não escolhemos.

Vamos tentar ir de férias, gozar do Sol e aquela alegria despreocupada dos dias de praia em que os horários e pratos de sopa deixam de ter importância e só temos cuidado em colocar chapéus e protector solar.

 

Não foi, contudo, nada fácil tirar o passaporte do Manel. Ninguém da fila teve respeito e paciência em esperar pela sorte de um bebé olhar quieto para o ângulo certo. Tentamos ignorar os que sopram e batem o pé e os atrevidos que opinam para que se tente fazer assim ou assado. Depois aparece a típica Senhora irrepreensivelmente bem vestida mas despida de boas maneiras. Interrompe para saber se terá prioridade. Interrompe novamente com ar esperto para ter a certeza que sim. Interrompe novamente para que lhe expliquem apenas uma questão na vez que sabe não ser a dela. Manel chora e desistimos.

É apenas o passaporte, mas é tão necessário. Devido a circunstâncias especiais, excepcionalmente permitem que enviemos por email a foto. Mas saímos desolados nem tanto pela falta de cooperação do Manel que tão bem compreendemos, mas amargurados pelo desrespeito dos outros. Já passou, agora já não nos interessa. Interessa-me que as doenças entrem em modo pause e começar a sentir a vontade de riscar os dias até ao nosso voo e de escutar aliviada o som do carimbo no tão desejado passaporte. 

 

Queremos ir de férias. Merecemos ir de férias e dançar e abanar os tumores sem pensar neles. Só queremos sentir que desta vez somos nós que controlamos um pouco as doenças e nos desligamos delas.

Vamos ter fé que desta vez embarcamos e o Sol será nosso.

 

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