Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Sexta feira rumei bem cedo ao hospital. Tínhamos que fintar o trânsito e a ansiedade do exame.

Chegámos cedo, sem filas de tráfego, apenas com os nervos que crescem pelo caminho. Uma mãe tenta sempre disfarçar aos filhos esta ansiedade que nos corrói. A cafetaria do hospital é sempre uma boa aliada para me dar algum açúcar e aqueles ares de rotina de quem pede um café em qualquer lado.

Os sonhos sorriram-me do outro lado da vitrina. Não deixa de ser irónico que, nos dois últimos anos, tenha sempre inaugurado a época natalícia dos sonhos no hospital. E posso mesmo garantir que é mais certo saber que o Natal está próximo quando os sonhos aparecem à venda na cafetaria do hospital. O restante comércio antecipa-se demasiado, mesmo quando ainda nem faz frio.

O Manel devorou comigo o sonho e entrámos para o exame, sacudindo os restos de açúcar dos cantos da boca, com cuidado para não afugentar de nós o sonho e a esperança.

As ondas do gráfico do electroencefalograma dançaram perante os meus olhos. Ainda não sou capaz de ler essas ondas. Mesmo assim, os meus olhos colam-se no ecrã como quem quer tentar adivinhar algum sinal, seja bom ou mau.

Pela primeira vez, foram-me preliminarmente confirmadas perspectivas de uma epilepsia mais controlada. Mesmo assim, vou aguardar pelo relatório escrito para então rasgar melhor o meu sorriso e alívio.

Segue-se um abraço apertado ao Manel que fica na escola, com a cabeça marcada do gel do exame,  neste caso, e pela primeira vez, uma marca positiva do EEG. Das outras vezes, tentava limpar logo e a todo o custo as marcas dos exames. Desta vez, nem me importei, trazíamos connosco restos do gel que não apagaram o sabor dos sonhos de açúcar.

O fim de semana mal começava e nem de propósito teria que enfrentar o Congresso de Esclerose Tuberosa. Neste evento anual procuro sempre saber mais notícias dos medicamentos, novas esperanças... mas simultaneamente é o momento de sofrer por antecipação, conhecer ao vivo casos graves de meninos bem mais velhos que o Manel. Muitos não falam, nem andam e parecem alheios ao mundo. Mas uma Mãe de cabelos brancos garantiu perante toda a plateia que o seu filho (apenas capaz de sorrir) lhe continua a trazer diariamente a força de viver e alegria. Haja o que houver no futuro, o mais importante é o sorriso do Manel, pensei, chorando. Custa muito chorar em público. Custa ainda mais quando tenho que fazer uma apresentação sobre o processo judicial de interdição e inabilitação de incapazes por anomalia psíquica.

Por feliz coincidência, no último slide tinha colocado esta foto do Manel, sorrindo.... Não sei se o Manel um dia chegará a estudar na escola, se será perante a lei um incapaz interdito... mas eu serei sempre uma Mãe babada pelo seu sorriso. O meu sonho é este... ter sempre este sorriso.

fotografia (12).JPG

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando descobri a doença do Manel, descobri novos medos. Já vos contei aqui tantas vezes que à noite tudo me parecia pior e mais incontrolável. Passei a ter medo de dormir. E se o Manel tivesse uma crise de epilepsia? Passei a dormir abraçada ao Manel. Sempre que ele se mexia, eu acordava, num sobressalto imediato à medida do meu medo. Apesar de trancados num abraço e das doces músicas de embalar cantadas para afugentar os medos, essas crises nada bem-vindas tomaram-nos mesmo de assalto. E depois de cada crise o Manel adormecia novamente abraçado a mim e eu só dormitava muito tempo depois, sempre com o coração vigilante mal refeito, tão angustiado, refugiado naquele colo pequenino e nas orações de súplica. Por milagre a primeira cirurgia levou embora as crises que os nossos olhos viam. Mas as memórias e os medos não se apagaram e continuámos por muito tempo a dormir juntinhos.

Depois comecei a ter coragem para deixar o Manel dormir na caminha ao meu lado, pelo menos durante alguns períodos nas nossas noites. Mas sempre que escutava algo, acordava e vigiava se a minha cria estava bem, para então regressar ao sono mais sossegada. Esta doença infelizmente também brinda o Manel com perturbações de sono. E as perturbações de sono dele, também são as minhas. Deixei de olhar para o relógio, pouco importa saber se dormi 7 ou 4 horas de sono intercaladas. Mais vale nem saber... pego no Manel e encosto-o a mim, esperando que um dia o Manel e o João Pestana possam finalmente ser amigos.

Até que ontem, pela primeira vez, o Manel dormiu no quarto do Francisco. Assim que o Manel nasceu, afixei na porta daquele quarto uns aviões com o nome das crias. Mas a verdade é que o quarto só guardava roupas e brinquedos do Manel e não qualquer rotina de manos que adormecem e acordam juntos, lado a lado nesse companheirismo das noites. O Francisco quando viu o Manel a dormir como um anjo naquela cama de grades, abraçou-me muito e disse-me ao ouvido que o Manel era muito lindo a dormir. Também me segredou que estava tão contente por ter o mano ali com ele. O Francisco sentiu-se um guardião do Manel e eu fiquei com o coração cheio de orgulho por esta meta conquistada que traz tanta felicidade à relação dos irmãos. Confesso que dormi com um auscultador encostado a mim e algumas vezes fui espreitar o Manel só para afugentar os medos. E o mais incrível é que o Manel dormiu bem. Eu não dormi bem, mas estou feliz por tentar sossegar os medos. E assim vou crescendo, aprendendo a dar espaço ao Manel para que cresça.

E não posso deixar de terminar com a oração que a minha Avó Augusta me ensinou desde pequena (e que o Francisco já sabe de cor):

Meu anjo da guarda minha doce companhia

Guarda a minha alma de noite e de dia

Autoria e outros dados (tags, etc)

À saída de casa o Francisco viu-me com uma mala e perguntou-me se íamos de férias.
Expliquei que vinha com o Manel aos médicos para ver se o ajudam a dormir melhor e nos seja finalmente possível mudar a cama do Manel para o quarto do Kiko que se deseja tanto seja partilhado pelos manos.
Com a mesma compreensão de sempre recebi um beijo amigo do Kiko. Também acrescentou em tom sério que eu era um amor. Acredito que Deus muitas vezes me fala nesta voz de criança pequena. O Kiko fica tranquilo com o Pai e eu sigo para o Hospital mais confortada.
Nós regressamos aos apitos das máquinas, aos choros que dançam nos corredores, fardas e rotinas de colocação artesanal de fios e eléctrodos a cola na cabeça. Parece que a ultima vez foi ontem e fico com a cabeça num turbilhão das memórias. O Manel está mais crescido e oferece maior resistência. Não tem memórias apesar de ser dele o internamento. Melhor assim.
A mim resta-me pensar que é só uma noite. Das outras vezes eram sempre muitas e incertas as noites.
Aqui de vigília te guardo fazendo figas para que te curem ao menos do sono para sonharmos mais alto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Já várias vezes falei aqui no blog que a gigante cicatriz do Manel na cabeça foi apelidada pelo Kiko de "risca".

 

A risca não é um desenho pequeno e muitos meninos  ficam intrigados e disparam mil perguntas.

 

De dia para dia (e com o crescer do cabelo em volta) vou-me habituando à marca. Em bom rigor a risca até é sinal das cirurgias que deram mais qualidade de vida ao Manel. A risca por si não é um sinal da doença, mas da nossa batalha contra essa maleita... é uma marca de guerra e devemos ter orgulho tal como os soldados exibem as suas cicatrizes.

 

Mas há sempre alguém que não consegue enfrentar a risca e uma vez, em conversa, foi-me até pedido para não tirar o chapéu ao Manel. Pela primeira vez senti na pele que a risca poderia colocar-nos barreiras. Sempre são fronteiras que se criam com as pessoas com quem não devemos perder tempo na vida, mas são barreiras que de outra forma eu não entenderia.

 

Não escondo que também já falei aqui muitas vezes sobre o Cristiano Ronaldo e de como fui simpatizando mais e mais com a sua determinação e amor pela sua Mãe.

 

Ontem não deixei de reparar no seu corte de cabelo. Hoje fico mesmo sensibilizada por perceber que o Cristiano quis prestar uma homenagem a um menino de "risca" como o Manel.

 

Obrigada Cristiano!

 

 

A probabilidade de ganharmos o Mundial se calhar é a mesma de descobrirem a cura para a esclerose tuberosa nos próximos anos. É bom saber que alguém se preocupa com meninos das "riscas" como o Manel.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nestes dias eu fico a desejar que o resultado seja fofinho....

 

 

E a torcer para encontrar os óculos mais giros e inquebráveis de todos os tempos!

 

O Francisco ficou todo entusiasmado e diz que também quer uns, verdes! Nestas idades é típico ter inveja de quem usa óculos ou aparelho.

 

(Ps - O oftalmologista confirmou que os tumores dos olhos não estão a afectar o nervo óptico = boas notícias. Esta doença não dá descanso, andamos sempre na azáfama de exames para a vigiar - velhaca com a mania que é rara!)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tempo para rezar

28.05.14

Temos sempre muito para fazer. Nem sempre nos lembramos de Deus e muito menos nos organizamos para rezar, dar graças... Também não quer dizer que o façamos por mal. Há amigos do peito com quem também não falamos todos os dias.

Quase sempre a oração é feita em momentos de angústia, em que levantamos os braços aos céus em desespero. Nesses momentos não queremos ser esquecidos por Deus e a oração sai-nos do coração num grito quando antes nem murmurávamos.

Quando era pequena gostava mesmo muito de rezar. Depois passei alguns anos em silêncio. Não foi um silêncio revoltado, totalmente descrente ou propositado. Achava que guiava a minha vida e não procurei mais nada que lhe desse algum sentido maior.

O Manel nasceu e muita gente me disse que o Papa Francisco afirmava que Deus dava as maiores batalhas aos seus melhores soldados.

Acontece que eu não me alistei... Não foi uma escolha minha ser guerreira e por isso não mereço esses elogios.

Seja porque motivo for, a minha vida tornou-se uma batalha. Os dias são de Sol ou de chuva. É-me mais fácil distinguir o que é um grande problema e um pequeno problema.

Passei a rezar mais. Em alturas em que o medo se apodera, já dei comigo a conduzir sozinha até Fátima. Para ganhar forças que não tenho, para libertar o medo quando o medo me duplica. A oração tem-me ajudado a encontrar alguma calma, algum sentido. Por isso não tenho dúvidas em confirmar a sábia frase do nosso querido Papa Francisco: às vezes na nossa vida os óculos para ver Jesus são as lágrimas.

Em Fátima escutei num terço alguém dizer que podíamos ter algum tempo para rezar se o fizéssemos logo pela manhã, no carro, a caminho da escola. Nessa altura poderíamos rezar em família.

Passei a rezar no carro e o Francisco acompanha-me. Muitas vezes pede para o Manel ficar bom da "risca" da cabeça e outros dias pede para não fazer birras na escola e para não se esquecer de trazer folhas para os bichos da seda.... O Francisco passou a querer rezar e muitas vezes é ele que me lembra. O curioso é que em Cuba, logo na primeira manhã em Havana, assim que entrámos no carro do nosso guia o Francisco perguntou se não rezávamos ao Jesus. Tive muito orgulho nele!

Deixo-vos aqui um desafio, rezarem pela manhã no carro com os vossos filhos... um momento em que pensamos juntos no bom dia que queremos ter e agradecemos estarmos juntos para viver mais um dia!

Depois contem-me como foi!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ao primeiro embate na notícia da doença, inevitavelmente perguntamos em choque, “O quê?”.

Não se entende e/ou nada se conhece sobre a doença e por isso somos assaltados com uma pergunta incrédula de quem nunca se imaginou neste cenário.

Pouco depois vamos tentando assimilar que este assalto à saúde é mesmo real e fará parte, para sempre, da nossa história. Aqui começamos a deixar de respirar e a sentir o chão mais seguro a fugir de nós, para sempre é uma eternidade e não vai passar. A cada acordar temos a certeza que o pesadelo não passou e é mesmo para sempre. Num turbilhão tentamos antecipar os capítulos da vida que afinal não vão acontecer e os episódios mais horrendos que podem suceder. O medo é o único que toma conta de nós. A gestão de expectativas e emoções dispara sem darmos por isso, é automática de tão inevitável. Mas esta antecipação do reescrever tudo o que imaginámos para o nosso filho faz-se como se arrancássemos pregos das  metas desejadas, para logo de seguida martelarmos novas sem saber onde e como. Desorientamo-nos, não sabemos mapear um coração desfeito e sentimos que nós pais afinal não controlamos nada.

Durante este Norte perdido, a culpa também se apodera de nós para além do medo. Será que fiz algo de errado? Porquê o meu filho? Se a doença é tão rara porque nos calhou esta lotaria envenenada? Se a estatística é tão remota, porque nos aconteceu a nós e não a outros? Os pratos da justiça desalinham-se e tentamos encontrar uma razão para se assimilar o que não conseguimos digerir. Quando a razão não se explica, a nossa natureza humana faz-nos apontar o dedo da culpa. Talvez a culpa seja minha. Talvez esteja a pagar por algo de errado que fiz.

Nunca encontramos resposta a essa pergunta do “porquê nós?”.

Mais tarde já não nos martirizamos tanto com essa pergunta, tanto mais que o jogo de saber se era ou não justo, no fim do dia não afasta o mal. O que de mal acontece aos nossos filhos é sempre tremendamente injusto aos olhos dos pais.

Ultimamente, o que mais dói é a pergunta que pairará sempre no ar como uma espada em cima das nossas cabeças “como seria se não fosse assim?”. Vejo os meninos da idade do Manel a andarem, a falarem e pergunto-me o que me diria se já falasse para além do “Olá” e da “Mamã”. Como seriam as brincadeiras do Manel e do Francisco, o jogar à bola e as corridas? Estas perguntas magoam muito e são sempre automáticas quando vejo irmãos com a mesma diferença de idade do Francisco e do Manel ou meninos da idade do Manel já tão desenvolvidos. Acreditem que não sinto inveja. Esta é antes uma dor que não consigo explicar porque dói mais do que uma inveja... a inveja parece ter por base o tirar do outro para nós, uma cobiça. No entanto, eu sei que nunca poderemos ter a cura e o que eu quero não é nada que se roube aos outros. É algo que nos falta, de que sentimos muita falta, vemos nos outros mas não podemos ter. Aceitar isto demorará uma vida. Não sei se um dia vou morrer a aceitar o que nos faltou. Fico feliz pelos que têm e não lhes quero mal, só queria dar essa saúde ao meu filho, se pudesse (ai se eu pudesse).

Sei que entretanto me vou inspirando noutros pais que perante circunstâncias parecidas ou até piores, conseguem sorrir. Esses pais foram exemplos fundamentais para eu não morrer logo de choque frontal. Não nos apetece sorrir a toda hora, nem todos os dias. Muitos dias são ganhos apenas se conseguimos não chorar à frente dos outros. Mas também há dias em que sorrimos genuinamente. Todos os dias são portanto uma escolha entre o chorar e o sorrir. Antes da doença eu tinha os dias normais, em que não me preocupava se era dia de sorrir ou de chorar. Agora nunca mais terei dias normais e a vida é um constante balançar.

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

O relatório

06.03.14

Ontem li um relatório sobre o desenvolvimento do Manel.

 

Os relatórios são sempre naturalmente objectivos e sintéticos. O relatório refere-se ao Manuel e tinha como finalidade cristalizar àquela data as evoluções e as competências adquiridas e estabelecer novos objectivos.

 

É sempre bom pensar em novos objectivos mas ler a frio os apontamentos de incapacidades, dificuldades, lacunas, fraquezas, falhas de aquisições é como colocar desde logo o dedo na ferida, antes de nos concentrarmos em sará-la.

 

Todos os dias lido naturalmente com esses handicaps e consigo ser feliz. Mas ler tudo resumido num par de folhas encolheu-me o coração a cada saltar de parágrafo. Tudo o que está escrito é a mais pura e crua verdade, que nem desconhecia mas simplesmente não encarava de forma tão objectiva.

 

O Manel tem feito progressos e sem dúvida que o seu desenvolvimento até supera as expectativas de quem analisa a sua ressonância cerebral tão evidenciada de inúmeros tumores.

 

Mas há dias em que o coração se encolhe e quase se cega perante os pequenos milagres. São os dias em que lidamos com os exames que chapam a preto e branco as deficiências, os relatórios que apontam as incapacidades (apesar de no final referir evolução positiva e reforçar a aposta na terapia).

 

Nestes dias apetece abrir a janela e deixar voar os papeis com o vento, como quem quer afastar os problemas e não ter de se importar em ter forças e coragem para lidar com as objectividades mais crueis da vida.

 

Talvez abra a janela, não para fazer voar os papeis mas apenas vaguear ideias. Já me conheço. Hoje sinto-me mais vulnerável, mas estes dias são necessários e ligam-me à terra (e ao céu nas orações), como um respirar fundo antes de mergulhar nos dias que se seguem.

 

Até amanhã!

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bebé Milagre

06.02.14
Hoje foi dia de regressar ao Hospital para consulta de neurocirurgia do Manel.


Ali reencontro uma sala de espera cheia de pais mais impacientes que os filhos (a maioria entretida com tablets para meu reparo de era moderna).

Pela primeira vez tirei o Manel do carrinho (não para o embalar no colinho) mas para circularmos juntos de mão dada pelo corredor do Hospital. Senti-me verdadeiramente orgulhosa... das outras vezes o Manel esperava sem se importar muito em explorar muito em redor. Agora não.


Então noto, sem conseguir evitar, os Pais que segredam algo quando o Manel lhes passa em jeito aparentemente inseguro (para quem não sabe das novas conquistas, tudo se resume a atraso assinalado em risca). Mas, calma, não me beliscam os segredos porque eu estou mesmo orgulhosa dos passos dados e dos sorrisos das enfermeiras que o elogiam pelos progressos.


Encontro um miudo de capacete de rugby na cabeça. Suponho que tenha sido operado como o Manel e troco impressões com a Mãe para saber onde adquirir um igual (modelo giro, que fez parecer o capacete daquele guarda-redes famoso). Conversamos as duas alegres ao partilhar histórias de melhorias e de dicas de capacetes para filhos radicais especiais.


Entramos na consulta e a Médica recebe-nos com um abraço e instantaneamente pega no Manel ao colo, feliz por vê-lo. Confio cegamente nesta médica que me cativa pela segurança e por este jeito sincero de cuidar do meu filho. Não é Médica de se limitar a tirar notas atrás da secretária ou a fazer medicina de bisturi na mão, analisa o comportamento do Manel com carinho e afeição para o tratar melhor.


Entre risos confirmamos as imagens da ressonância e uma outra médica ali presente não consegue disfarçar o choque de embate na imagem. São mesmo muitos tumores e vê-se bem a zona de extracção, comenta espantada.


Sim, sim respondemos, o Manel tem muitos tumores. E continuámos entretidas (sem dar importância ao comentário que não é novidade nenhuma) a contar, não os inúmeros tumores, mas as novidades do desenvolvimento do Manel, até que Dra. C. conclui:

O Manel é um bebé milagre. Quem olha para a ressonância e não conhece o Manel, nunca diria que ele estaria assim tão bem hoje.


Rezei muito pedindo o milagre da cura do Manel por intercessão de João Paulo II. Muito mesmo, seguindo uma oração oficial do Vaticano pedindo graças para santificação do Papa João Paulo II (não podia arriscar pedir um milagre por portas travessas ou preenchendo formulários errados para o efeito).


OK, não houve cura desta doença que conviverá sempre connosco. Mas acredito neste milagre de ver o Manel ser capaz, mesmo para além das suas capacidades acorrentadas em tumores. E saio feliz, mesmo escutando novamente que o Manel tem muitos tumores.


Pois sim, é verdade. Mas também é verdade que podiam esses tumores estar activos em fogo cruzado de energias epiléticas e para já não estão... e não sabendo eu nem ninguém se este cessar fogo está por horas, dias ou anos, quero aproveitar este pequeno grande milagre. Quero deliciar-me com as conquistas que agora nos concentram esforços e contradizem os prognósticos mais óbvios e pessimistas.


Agora só quero ser feliz, obrigada! Estou feliz e daqui a nada já comemoro a extracção do tumor porta-aviões com um chocolate.


Autoria e outros dados (tags, etc)

Inquietações

07.01.14

 

De vez em quando choram-me no coração estes pingos da chuva que nos outros dias consigo controlar e sabiamente conter em emoções de bom tempo de esperança.

Assaltam-me e assolam-me num golpe só estas preocupações postas propositadamente ao lado, numa força desmedida da pressão acumulada.

 

Serás capaz Manel? Serás feliz? Ou serás tu feliz e apenas eu infeliz com algumas frustrações mal lidadas por tu não teres noção completa?

Serás sempre amado pelos outros quando deixares de ser um bebe amoroso? Serei eu capaz de te defender? Será o Francisco capaz de te defender?

Serás capaz de um dia dizer que me amas ou será que apenas lerei esse amor em ti?

E se eu morrer? E depois?

 

Não me digam para não me preocupar. Não me digam que tudo vai correr bem. Apertem-me só a mão e jurem-me que também apertarão sempre a do Manel haja o que houver.

 

Nestes dias sinto que talvez seja uma pateta alegre nos demais. Mas não interessa.

 

Eu não sou o que sou nestes dias, nem só apenas o que sou nos outros dias. Eu sou esse espírito que balança trémulo entre todos esses estados de mim e vivo precisamente dessas pulsações.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Metas Especiais

17.11.13

Nunca acompanhei o crescimento do Francisco com imposição de metas. O desenvolvimento fluía natural e muitas vezes surpreendia de tão precoce.

 

Já com o Manel, a doença traz a angústia, o dever de estar alerta e o medo das incapacidades ou de alguma lentidão que me traga ansiedade no alcance.

 

Foi pior no início quando transformei o brincar em avaliações e testes… Queria perceber se o Manel já era capaz de transferir objectos, se adquiria força do lado esquerdo, eram muitos os “ses” que me obrigavam ao constante verificar e me roubavam a sensação libertadora do brincar… de rolar no chão, fazer disparates só para fazer rir, sem mais nada que não fosse só a nossa diversão.

 

Quando comecei a conseguir tratar a doença por tu, fui finalmente capaz de a esquecer por instantes.  Atenção que nunca fui capaz de esquecer a doença durante um dia inteiro sequer, mas felizmente há momentos de brincadeira e de rotina em que deixamos de fora as avaliações e assim somos só nós felizes a disfrutar do que somos sem espaço para mais. É difícil chegar a essa simplicidade e pureza dos momentos de mãe e filho sem circunstâncias da doença, mas a pouco e pouco vamos conseguindo, não ainda a passo, mas ao nosso ritmo simples de quem ainda anda de gatas.

 

Sem querer impor uma meta de pressão, mas de motivação, gostava muito de te ver caminhar no meu aniversário no final de Janeiro. Vamos trabalhar muito mas também te vou mimar muito para que nada te pareça esforçado, mas sim gozado.

 

Lembro-me que quando gatinhaste fiquei literalmente histérica, chamando todos para te verem em andamento. Fui subitamente invadida de um enorme orgulho nessa tua vitória que me encheu de esperança para as próximas.

 

Ver-te recuperar tão bem da cirurgia, faz-me querer ambicionar mais… Vamos andar para novos caminhos! Vamos a isso!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A tentar conviver com
o pico de febre que assaltou o Manel esta noite,
o rebuliço do serviço de observação da urgência onde nos misturamos agora com meninos em pit stop de curas simples (às vezes apetece-me responder às outras mães tão aflitas que só tens um galito na cabeça pois até parece mal estarmos aqui)
a ansiedade de saber o resultado das análises para ter certeza que o teu sorriso se manterá,
a impossibilidade de realizar hoje tac por estar em manutenção e a falta de manutenção da minha paciência para isso,
o Maridão na urgência da Cuf,
a saudade de abraçar o Francisco no meu colo e sentir aquela alegria que me permite fingir e quase acreditar para mim que está tudo bem,
a falta de horas de sono que já me fazem adormecer de pé encostada a caminha de grades do Manel e parecer uma mulher das cavernas quando envolta na manta tigress que a minha maezinha me trouxe,
o jejum de chocolates e o moderado abuso de café em rescaldo do indiano.

Há dias assim, de esperas em que mais parece estar à prova. Se passar ilesa ficarei mais forte, mas por agora fraca.
Amanhã pode ser que seja o dia de inverter o mau com o bom ou perceber que afinal os picos nem eram tão grandes e só assim pareciam a olhos ensonados e gastos de um mau passado.
Até lá vou crescendo à força.
Não, não caio enquanto te vir a sorrir e isso não perdemos!
Valha-me o teu sorriso para me pôr de pé a sorrir para ti.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Muitas vezes quando a minha irmã mais velha quer ter certeza do estado do Manel pergunta-me se ele já sorriu.
Assim comunicamos certezas de estados sem recorrer a monitores de gráficos nem a resultados de análises. É simples, confiamos no teste clínico do sorriso.
Esta noite andava ansiosa para te saber bem Manel e deixaste-me no céu quando começaste a palrar e a entoar o teu olá. De repente, rasgas-me um sorriso e tentas gatinhar!
Credo Manel, acalma-te não é preciso tanto!
As crianças têm esta capacidade de recuperação notável! Nenhum de nós ousaria por enquanto tirar a sua cabeça de agrafos do travesseiro.
Mas tu tens a força da inocência e já me arrancaste um sorriso (muitos)!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vigília

24.10.13


No final da longa espera em que nas últimas horas já não consigo descolar os olhos do relógio para ter a certeza que o tempo avança, ouvi finalmente a porta do bloco abrir e esbugalhei olhos e ouvidos às boas notícias sobre o que eu não vi lá dentro. Mas as boas notícias não chegam para o meu sossego, quero ver-te.
Sais pálido como um boneco de cera mas sereno e tão lindo. Já não sou capaz de parar de te olhar para adivinhar sinais. Se consegues mexer um braço ou perna, se tens forças, dores.
Agitas-te e eu contigo. Respiramos os dois mas isso só não basta.
Quando abres os olhos tento que me procures e falo-te baixinho para me encontrares nesse reconhecimento. Ainda estás zonzo como eu. Tenho que te dar tempo.
Passado um instante dou-te um pouco de chá pela seringa e bebes como um pintainho sedento.
Aguardamos.
Depois passamos ao teu leitinho e tu surpreendes-me com a tua força segurando o biberon como se tivesses o mundo entre mãos! Fazes-me sorrir tanto!
Mas depois vem a agonia e vomitas e eu tento estar firme que são complicações normais (repetindo cem vezes para mim que é normal para interiorizar isso).
Agora espero-te novamente e ficarei aqui sempre ao teu lado para te amparar.
Tento esquecer os pensamentos sobre as tantas desaventuras da anterior cirurgia mas não consigo viver sem essa sombra de medo. Preferia não ter esse passado presente para agora ser capaz de festejar tão só que te devolveram vivo.
Preciso rezar para pedir mais fé. Pedir que eu seja capaz de entregar a Maria este sofrimento.
Fecho os olhos e lembro-me do que li em Fátima:

Autoria e outros dados (tags, etc)



Chegámos. Se tudo correr bem volto a abraçar o Francisco na Sexta.
Partiu-me o coração ouvi-lo ontem perguntar entusiasmado onde íamos, quando me viu a organizar a mala.
Expliquei que os Drs. queriam ver melhor o Manel, mentindo que tudo seria num instantinho. Mas o pirata viu uns pacotinhos de papa por ali e contou 5.
- Mãe vais ficar no Hospital 5 dias?! - deduziu para meu enorme espanto.
- Sim Francisco. Passa num instante - tentando eu desvalorizar e não rectificar que seriam mais.
- Mas isso são muitos dias Mãe! Os Drs. não podem vir cá a casa?
- Boa ideia Francisco! Amanhã vou perguntar isso aos Drs. E depois a Mamã vai trazer-te um presente!
- Só um? Podem ser quatro?
Só aqui descomprimi quando passámos à fase da negociação.

Hoje rezo muito pelo Manel que se sente aqui em casa. Agora dorme tranquilo nesta cama de grades sem se preocupar com o amanhã.
Mas também rezo pelo meu Francisco que cresce sempre mais um bocadinho a cada internamento do mano.
Não vos pondendo poupar a isto meus queridos, então ao menos que possamos crescer juntos.



Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D