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Praxe

10.03.14

Ainda não tinha escrito nada sobre o tema, apesar de nos últimos 4 meses termos sido inundados em força pela onda do assunto.

 

O misterioso caso do Meco tem sido peculiar na divisão da opinião pública que, baseada em notícias que a todo o momento se desfazem ou se recompõe, se apressou em arrumar as posições nas gavetas a favor ou contra a praxe e reclamar medidas legislativas ou regulamentares a tomar com suposta urgência.

 

A praxe em Coimbra, por exemplo, tem códigos precisos e uma tradição de longa data. Em Lisboa o fenómeno da praxe sempre pareceu algo estranho, desenraizado e até enxertado. De qualquer forma, todos os anos são conhecidos por todo o lado abusos e queixas quase sempre silenciadas.

 

Pessoalmente não sou a favor da praxe. Na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa felizmente não se dava importância à praxe. Daqui a largos anos acredito, pelo evoluir da civilização, que a praxe venha finalmente a ser considerada um abuso que em nada abona na integração dos caloiros e da salutar vida académica. Existirão outras formas mais divertidas e civilizadas de convívio. Será uma afronta da liberdade proibir a praxe? Ou será uma afronta não a proibir? A quente nunca se tomam boas decisões, pelo que por ora será importante pensar com calma sobre o assunto.

 

O que me levou a escrever este post nada tem que ver com a minha opinião sobre a praxe em geral. Passados estes meses, fiquei sempre à espera de ver colegas da praxe a chorar pelos que morreram, mas até agora não assisti a lágrimas sentidas de saudade e nem sequer a lágrimas fingidas. Só vejo Pais a chorar.

 

Recordo-me de ver uma entrevista em que duas jovens trajadas discursavam sobre a importância da praxe, do seu traje que orgulhosamente não lavavam e dos sapatos velhos colados a fita adesiva. Uma das jovens tinha até um ar insolente e a outra um ar sonso de quem segue os ditames de uma seita.

Aqui não ponho em causa (até porque não existem provas concretas) se os jovens em causa morreram naquele mar durante uma praxe maquiavelicamente arquitectada por um Dux que todos respeitam e assentem rastejar a seu mando.

O que ponho em causa é a forma como estes jovens defendem rituais de praxe e as tontices de um traje maltrapilho mas contraditoriamente sagrado que teimam em não lavar por supostamente lhes guardar boas memórias e histórias de vida. Também não fico indiferente às declarações de olhos secos de um namorado de uma vítima que friamente continua a dizer maravilhas da praxe e não demonstra emoções de luto de quem perdeu alguém que amou.

 

O desespero dos pais é evidente na tentativa de descoberta da verdade. Seja qual for a verdade (in dubio pro reu) não entendo a falta de cooperação dos colegas desse grupinho de Praxe que não soltam lágrimas mas tão só declarações petulantes como se tratassem de um bando de meninos com capas brincando a super heróis corajosos e destemidos a quem a praxe supostamente faz crescer pêlos no peito.

 

Indigno-me a assistir a esta pretensa solidariedade de silêncios rompidos por declarações insolentes e tão infantis de quem se quer assumir como um grupo respeitador e organizador de praxe. Assustam-me estes jovens cujos pais supostamente pouco ou nada sabiam acerca dos rituais de praxe e do que faziam os seus filhos numa COPA.

 

Assusta-me que perante o sucedido estes capas negras não repensem se um fim de semana de praxe em Dezembro (sem caloiros, apenas preparação de praxe do ano seguinte) seria pertinente e se as práticas (muitas desconhecidas por todos) seriam acertadas e dignificadoras.

 

Não me interessa agora o mar que não será afinal capaz de devolver vidas. Preocupa-me tão só a teimosia e a petulância dos que ouvi gabar praxes do rastejar e da hierarquia de autoridades baseadas em respeitos que se podem ganhar em durezas de praxes superadas.

Isto sim é muito preocupante pois há quem não cresça enquanto pensa que é um duro herói de capa preta, espada de colher de pau e sapatos colados a fita.

 

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