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Força Portugal

16.06.14
Hoje é Segunda-feira mas parece Sexta! Toda a gente a fazer planos para o final da tarde e para se pisgar de fininho.
Minis no frigorífico e os putos a gritar Portugal olé (sendo que o meu kiko gosta de acrescentar o verso salsichas com puré!)
Está calor e quase nos sentimos todos no Brasil :)
Let the game begin Tugas!

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Manel o Minion

14.06.14
Óculos escolhidos. Segui os conselhos da amiga Rita (uma mãe coragem) e comprámos uns óculos de silicone Miraflex (inquebráveis para evitar dói dóis em caso de queda do Manel) e com elástico atrás à volta da cabeça - igual ao dos minions. Percebi que mesmo com lentes especiais de espessura reduzida os olhinhos do Manel ficarão super ampliados em efeito gato das botas. Aqui fica uma imagem da prova (ainda sem lentes fundo de garrafa). O amor de Mãe faz-me continuar a vê-lo como um grande fofinho :), e é meu!

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Nestes dias eu fico a desejar que o resultado seja fofinho....

 

 

E a torcer para encontrar os óculos mais giros e inquebráveis de todos os tempos!

 

O Francisco ficou todo entusiasmado e diz que também quer uns, verdes! Nestas idades é típico ter inveja de quem usa óculos ou aparelho.

 

(Ps - O oftalmologista confirmou que os tumores dos olhos não estão a afectar o nervo óptico = boas notícias. Esta doença não dá descanso, andamos sempre na azáfama de exames para a vigiar - velhaca com a mania que é rara!)

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Eu e o Francisco somos amantes das feirinhas e vibramos com as músicas do Tony Carreira que se ouvem nos altifalantes, interrompidas pela senhora dos carrinhos de choque que grita para alguém rodar o volante ou por a ficha para mais uma voltinha.

Todos os anos ficamos animados com a "nossa" Feira de Oeiras e desejosos para descobrir se há novos carrosséis, apesar de sermos fãs fieis dos clássicos carrinhos de choque e das chávenas que giram no mesmo carrossel de há anos e anos.

Há coisas que não mudam.... desde pequena me lembro dos rapazes que trabalham nos carrinhos de choque e conduzem sentados nos encostos e não nos bancos, com um ar de "sou muito mau e não se metam comigo que ando nisto todos os dias". A cada paragem a criançada salta e roda maluca e ouve-se sempre a birra da menina que queria o carro cor de rosa ou do menino que queria a mota e já está ocupada! Mas assim que se inicia nova voltinha, já está tudo a postos para novos embates!

No carrossel é assistir aos paizinhos a dar indicações para os filhos não se largarem e os putos acenam delirantes enquanto lhes tiram as fotos para mostrar aos avós... e há sempre aquele que chora com medo enquanto outro grita por mais velocidade.

Este ano a feira tem uma mini montanha russa que parece construída nos anos 70. O Francisco não teve medo nenhum e eu ao lado gritava a rir de nervoso com receio que algum parafuso ou ferro saltasse! A montanha russa não tem descidas, loopings, nem rapidez alucinantes mas o barulho dos carris tão gastos dão mais adrenalina que qualquer diversão dos  parques famosos. Tenho mesmo de  aproveitar enquanto o Francisco gosta que o acompanhe e ainda não tem vergonha dos gritos risos da Mãe. O Pai delicia-se a assistir sossegado ao espectáculo dos nossos gritos.

Tanta agitação provoca fome e no ar mistura-se sempre o aroma do açúcar do algodão doce, com os óleos das farturas e fumos das sardinhas. Ir à feira uma só vez não chega. É que posso "matar a fome" rapidamente das diversões, mas não tenho estômago para de uma vez só satisfazer os desejos das farturas, pipocas algodão doce, pão com chouriço quente acabado de sair do forno, caracóis, bifanas! Temos de lá voltar!

Tenham cuidado é com os roubos! Um balão = 5 euros senhores! Um escândalo! Mas enfim, o balão tem sido a maior diversão do Manel lá em casa que adora passear o balão e tentar "morde-lo" sempre que o Francisco está mais desatento. Gosto de ver o ar satisfeito do Francisco a sair da feira agarrado ao seu balão, igual ao meu ar feliz agarrada a um manjerico e aos sacos de biscoitos de erva doce e limão!

Vivam os Santos!

  

 

 

 

 

 

 

 

 

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A passo e passo

08.06.14
Com pequeninos passos ainda um pouco trémulos mas com vontade de descoberta, segurando na mão um balão tão cheio como os nossos sonhos que pairam no ar! E eu tão orgulhosa de ti!

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Ontem escrevi um post sobre a minha relação com a comida. A comida de facto conforta-me.

Mas também há palavras que confortam (com a vantagem de não nos engordarem tanto).

 

O Manel tem andando doente. Depois da estomatite aftosa o rapaz mal se recompôs e apanhou entretanto uma virose. Mais uns dias em casa sem ir a escola... o gazeteiro!

 

Quando de manhã deixo o Francisco na escola, as educadoras do Manel têm perguntado por ele. Perguntam-me se o rapaz está melhor, interessam-se e comentam que têm saudades e se é já amanhã que o Manel regressa a escola.

 

Saio da escola com o coração cheio e a certeza que o Manel está em boas mãos. Pode dar mais trabalho que qualquer outro da sua sala, mas é querido por todos. Querem-no de volta! Parece tudo simples, mas para uma Mãe de menino especial, esta simples pergunta foi valiosa e alegrou-me o dia.

 

Muitas vezes perguntam-me se está tudo bem e respondo com o mesmo automatismo da questão que me foi dirigida.

 

Mas, por vezes, essa pergunta tão simples pode fazer diferença no nosso dia, quando sentimos que alguem do outro lado se preocupa e quer mesmo saber.

 

Assim como quando alguém nos envia uma mensagem e deseja boa sorte para algo que queremos muito e nos faz sonhar. Essa mensagem é como se alguém nos desse a mão com força em segredo.

 

Quando alguém morre nunca sei o que dizer. Parece que não encontramos palavras verdadeiras e sentidas para aliviar o outro. Prefiro muitas vezes dizer apenas que estou ali para o que for preciso e sempre que for preciso. Se só disser "Os meus sentimentos" parece não fazer sentido... que sentimentos?

 

Acredito pois que as palavras simples são as que mais confortam e encorajam.

 

 

 

 

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As comidas e eu

03.06.14

No fim de semana fiz pela primeira vez uma pavlova. Para quem não conhece é uma sobremesa em que a base é um suspiro gigante, levando por cima uma camada de chantilly e frutas. Um pecado irresistível. Não ficou perfeita, preciso tentar ajustar melhor a receita. De qualquer forma, não sobrou nada o que me incentiva a aprimorar o doce.

 

 

Enquanto cozinhava, lembrava-me que esta é uma das sobremesas preferidas da minha irmã do meio que está noutro Continente distante. 

 

A comida traz-me recordações de infância (dos tempos em que com 4/5 anos já aprendia a cozinhar com a minha Avó) e memórias de amigos e família que estão longe. Não há vez que prepare uma mousse de chocolate sem me lembrar da minha Avó que está no céu. Ou que pense em tarte de leite condensado sem me lembrar da Katucha ou da Fatty. O rolo de carne é o da Madrinha e quando escuto alguém falar em bimby os meus pensamentos estão nas minhas primas e cunhada. Não há tarte de maçã melhor do que a da minha Mãe. E que saudades dos caracóis do Pai da Filipa. Mais recentemente Fondue tornou-se sinónimo de casa dos Malatos. E assim vou catalogando as comidas com os nomes e lembranças da família ou dos amigos.

 

Mas há um problema grave, gravíssimo. Eu só não gosto de dobrada, sardinhas e pés de porco (ok insectos também se formos "chiques" e pensarmos em cozinha internacional). De resto, adoro tudo. Podia ser esquisita e ter uma figura de meter inveja. Mas gosto tanto de comida que sou capaz de fazer quilómetros só para ir comer ao restaurante X ou Y. Nas férias sou menina para acordar com o despertar dos miúdos na hora em que o galo canta e ponderar ir para a praça ou mercado pela fresquinha tentar encontrar lingueirão para um arroz malandro! Pensar no jantar antes mesmo de tomar o pequeno almoço é capaz de não ser normal.

E já ando em pulgas ansiosa pelo Mundial! Não que conheça de cor todos os jogadores da selecção e que consiga assistir aos jogos concentrada (depois de ter miúdos é uma sorte se me aperceber do resultado assim que o jogo acaba - às vezes só me lembro de perguntar no dia seguinte o resultado do jogo que supostamente assisti). Mas é uma excelente desculpa para nos reunirmos em roda da mesa televisão a petiscar!

Eu sou assim, bato com a mão no peito e me confesso a pecadora das mais gulosas!

Mais alguém se confessa?

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Tenho saudades de ser pequena e sonhar ser crescida

Dos dias em que o tempo parecia infinito

E eu tinha a pressa irrequieta das crianças

Em tempos em que esperávamos impacientes a abertura do canal de televisão.

 

Tínhamos aquela idade especial, sem medo de provarmos o azedo das flores amarelas

Ou das flores das quais puxávamos o fio adivinhando o doce das suas gotas.

 

Conhecíamos bem a rua, os outros miúdos

E juntos riscávamos a giz o alcatrão,

O nosso território de macacas e sirumbas

alimentado a papas de lama e cuidado por pais e mães de meio metro

Onde podíamos gritar e ouvir os nossos pais gritando também para regressarmos a casa.

 

Tempos em que teimávamos que queríamos a piscina e não a praia,

Mas ríamos enrolados nas ondas cheios de areia na cabeça sem nada importar.

 

Podíamos ser caçadores de bichos, lagartas, sapos, bichos da seda, caranguejos

Mas também nos era possível voarmos nos baloiços com um balanço em despique

E enfrentar receios em jogos de quarto escuro

Gritando tantas vezes nos conflitos das batotas,

acusando ou defendendo como se fossemos pequenos juízes da nossa verdade.

 

O nosso quarto era um palco e trampolim de imaginação,

em segundos transformado no nosso faz de conta

ainda mais real se inventado e contracenado com irmãs ou amigas.

 

Tenho saudades de ser criança

Mas tenho muita sorte por ter hoje as minhas crianças com quem brincar.

 

 

 

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Tempo para rezar

28.05.14

Temos sempre muito para fazer. Nem sempre nos lembramos de Deus e muito menos nos organizamos para rezar, dar graças... Também não quer dizer que o façamos por mal. Há amigos do peito com quem também não falamos todos os dias.

Quase sempre a oração é feita em momentos de angústia, em que levantamos os braços aos céus em desespero. Nesses momentos não queremos ser esquecidos por Deus e a oração sai-nos do coração num grito quando antes nem murmurávamos.

Quando era pequena gostava mesmo muito de rezar. Depois passei alguns anos em silêncio. Não foi um silêncio revoltado, totalmente descrente ou propositado. Achava que guiava a minha vida e não procurei mais nada que lhe desse algum sentido maior.

O Manel nasceu e muita gente me disse que o Papa Francisco afirmava que Deus dava as maiores batalhas aos seus melhores soldados.

Acontece que eu não me alistei... Não foi uma escolha minha ser guerreira e por isso não mereço esses elogios.

Seja porque motivo for, a minha vida tornou-se uma batalha. Os dias são de Sol ou de chuva. É-me mais fácil distinguir o que é um grande problema e um pequeno problema.

Passei a rezar mais. Em alturas em que o medo se apodera, já dei comigo a conduzir sozinha até Fátima. Para ganhar forças que não tenho, para libertar o medo quando o medo me duplica. A oração tem-me ajudado a encontrar alguma calma, algum sentido. Por isso não tenho dúvidas em confirmar a sábia frase do nosso querido Papa Francisco: às vezes na nossa vida os óculos para ver Jesus são as lágrimas.

Em Fátima escutei num terço alguém dizer que podíamos ter algum tempo para rezar se o fizéssemos logo pela manhã, no carro, a caminho da escola. Nessa altura poderíamos rezar em família.

Passei a rezar no carro e o Francisco acompanha-me. Muitas vezes pede para o Manel ficar bom da "risca" da cabeça e outros dias pede para não fazer birras na escola e para não se esquecer de trazer folhas para os bichos da seda.... O Francisco passou a querer rezar e muitas vezes é ele que me lembra. O curioso é que em Cuba, logo na primeira manhã em Havana, assim que entrámos no carro do nosso guia o Francisco perguntou se não rezávamos ao Jesus. Tive muito orgulho nele!

Deixo-vos aqui um desafio, rezarem pela manhã no carro com os vossos filhos... um momento em que pensamos juntos no bom dia que queremos ter e agradecemos estarmos juntos para viver mais um dia!

Depois contem-me como foi!

 

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"Doençazinhas"

26.05.14

O Manel apanhou estomatite aftosa. Juro que devíamos ter em casa uma caderneta de cromos das doenças. Apanhamos de tudo e temos cromos dourados (de coisas raras) e também temos cromos repetidos para a troca.

O Francisco já tinha apanhado estomatite aftosa (numa dose digna de transfigurar a cara do rapaz). Agora foi o Manel, check... next!

Confesso que a doença do Manel (esclerose tuberosa) me absorve tanto que me falta paciência para estas pequenas coisas.

Concentro-me tanto na batalha principal que depois não pareço não ter energia para estas "coisinhas" comuns.

Toda a gente diz que estas são as doenças "normais" e que nesta idade é comum os miúdos apanharem tudo. Pois sim! Mas eu já tenho a minha dose.

 

Para ajudar a festa apanhei uma gripe valente. Nos últimos anos era normal constipar-me e entupia-me de griponal, ben-u-ron e o que mais houvesse a mão e tudo passava mais dia menos dia. Mas desta vez a febre assaltou-me e o cansaço também. Não é suposto as Mães estarem doentes. Andamos muito ocupadas entre trabalho, miúdos, casa. Não temos tempo para doençazinhas.

 

Hoje começa a semana e espero virar a página para uma semana melhor. Tudo a regressar à rotina. E a rotina às vezes cai bem....

 

Eu nunca experimentei suminhos de fruta com espinafres ou bróculos, gengibre, sementes de chia e linhaça... será por isso que estou a cair aos cacos? Para além de não estar in quanto aos meus pequenos almoços sem graça, parece que estou a ficar fraquita. Era giro pôr-me aqui a armar que tomei um iogurte com granola XPTO e sementes disto e daquilo, ein?

Alguém que tome esses batidos pode confirmar se passou ileso sem doenças nos últimos dois anos?

Já estou por tudo!

 

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 A moda das pulseiras de elásticos é uma verdadeira febre.

O material não é nobre e compra-se na loja do Chinês... mas isso não interessa nada, vivam as cores e as mil combinações!

 

A pequenada e muitas mães andam entretidas e a dar largas à imaginação em verdadeiras oficinas domésticas de pulseiras. Tablets e computadores de lado, e venham de lá os teares, as canetas ou só os dedos para os mais habilidosos.

Isto já é um negócio senhores! E não pensem que os rapazes não fazem pulseiras e não as usam! Todos com mãos à obra!

Eu já me rendi também...

 

E não pensem que a nobreza se faz rogada às pulseiras com material dos "xeneses"... a Kate é uma copiona e também usa a pirosa!

 

 

Os meus primos aceitam encomendas. Olhá pulseira da moda! É "pró menino e prá menina", é um "éro", um "éro"!

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Todos os dias tenho ligado para a escola à hora de almoço, ansiosa para saber se o rapaz está feliz.

A adaptação ao ritmo da escola não é fácil e acredito que para o Manel tudo pareça uma montanha russa de emoções.

Curiosamente nos últimos dias o Manel agarra-se a mim antes de o deixar. Às vezes chora. Este chorar pode ser contraditoriamente bom, é sinal que tem noção de que me vou embora e está a entender a dinâmica. O importante é que tem conseguido (com a ajuda de muitos colinhos bons) recompor-se e assim vai crescendo.

O Manel na escola faz pinturas, tem aulas de música e de ginástica com os outros meninos, brinca lá fora no parque. Passaram tão poucos dias e eu sinto uma diferença grande na conquista da sua independência. No final do dia está cansado, mas depois de uns abraços das saudades acumuladas mostra-me um sorriso enorme de quem parece sentir-se importante.

A escola do Manel e do Francisco é fantástica. A sala do Manel é enorme e foi adaptada para bebés que estão a iniciar a marcha. O berçário já limitava a vontade destes exploradores que assim têm maior liberdade, sem a prisão das responsabilidades da sala dos meninos mais crescidos. É um enorme descanso sentir que não conheço nem imagino uma sala mais perfeita para o Manel.

O Francisco também está feliz ali e esta semana até me mostrou orgulhoso a horta da escola onde plantou couves.

Existem tantas escolas diferentes, com modelos e infra-estruturas diferentes que muitas vezes ficamos indecisos com tanta oferta perante a nossa procura da escola mais perfeita para confiar os nossos filhos. Aqui deve entrar o nosso instinto de Pais e a nossa certeza vai muito para além das opiniões dos outros e dos certos na nossa própria check list (todos temos prioridades diferentes). A simpatia pelas pessoas, pelo espaço e a interacção e energias têm uma subjectividade indescritível, sendo o que afinal nos enche em grande parte as medidas das expectativas.

 

 

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Ao primeiro embate na notícia da doença, inevitavelmente perguntamos em choque, “O quê?”.

Não se entende e/ou nada se conhece sobre a doença e por isso somos assaltados com uma pergunta incrédula de quem nunca se imaginou neste cenário.

Pouco depois vamos tentando assimilar que este assalto à saúde é mesmo real e fará parte, para sempre, da nossa história. Aqui começamos a deixar de respirar e a sentir o chão mais seguro a fugir de nós, para sempre é uma eternidade e não vai passar. A cada acordar temos a certeza que o pesadelo não passou e é mesmo para sempre. Num turbilhão tentamos antecipar os capítulos da vida que afinal não vão acontecer e os episódios mais horrendos que podem suceder. O medo é o único que toma conta de nós. A gestão de expectativas e emoções dispara sem darmos por isso, é automática de tão inevitável. Mas esta antecipação do reescrever tudo o que imaginámos para o nosso filho faz-se como se arrancássemos pregos das  metas desejadas, para logo de seguida martelarmos novas sem saber onde e como. Desorientamo-nos, não sabemos mapear um coração desfeito e sentimos que nós pais afinal não controlamos nada.

Durante este Norte perdido, a culpa também se apodera de nós para além do medo. Será que fiz algo de errado? Porquê o meu filho? Se a doença é tão rara porque nos calhou esta lotaria envenenada? Se a estatística é tão remota, porque nos aconteceu a nós e não a outros? Os pratos da justiça desalinham-se e tentamos encontrar uma razão para se assimilar o que não conseguimos digerir. Quando a razão não se explica, a nossa natureza humana faz-nos apontar o dedo da culpa. Talvez a culpa seja minha. Talvez esteja a pagar por algo de errado que fiz.

Nunca encontramos resposta a essa pergunta do “porquê nós?”.

Mais tarde já não nos martirizamos tanto com essa pergunta, tanto mais que o jogo de saber se era ou não justo, no fim do dia não afasta o mal. O que de mal acontece aos nossos filhos é sempre tremendamente injusto aos olhos dos pais.

Ultimamente, o que mais dói é a pergunta que pairará sempre no ar como uma espada em cima das nossas cabeças “como seria se não fosse assim?”. Vejo os meninos da idade do Manel a andarem, a falarem e pergunto-me o que me diria se já falasse para além do “Olá” e da “Mamã”. Como seriam as brincadeiras do Manel e do Francisco, o jogar à bola e as corridas? Estas perguntas magoam muito e são sempre automáticas quando vejo irmãos com a mesma diferença de idade do Francisco e do Manel ou meninos da idade do Manel já tão desenvolvidos. Acreditem que não sinto inveja. Esta é antes uma dor que não consigo explicar porque dói mais do que uma inveja... a inveja parece ter por base o tirar do outro para nós, uma cobiça. No entanto, eu sei que nunca poderemos ter a cura e o que eu quero não é nada que se roube aos outros. É algo que nos falta, de que sentimos muita falta, vemos nos outros mas não podemos ter. Aceitar isto demorará uma vida. Não sei se um dia vou morrer a aceitar o que nos faltou. Fico feliz pelos que têm e não lhes quero mal, só queria dar essa saúde ao meu filho, se pudesse (ai se eu pudesse).

Sei que entretanto me vou inspirando noutros pais que perante circunstâncias parecidas ou até piores, conseguem sorrir. Esses pais foram exemplos fundamentais para eu não morrer logo de choque frontal. Não nos apetece sorrir a toda hora, nem todos os dias. Muitos dias são ganhos apenas se conseguimos não chorar à frente dos outros. Mas também há dias em que sorrimos genuinamente. Todos os dias são portanto uma escolha entre o chorar e o sorrir. Antes da doença eu tinha os dias normais, em que não me preocupava se era dia de sorrir ou de chorar. Agora nunca mais terei dias normais e a vida é um constante balançar.

  

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