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Ontem à noite consegui finalmente soltar a primeira lágrima que concentrou as emoções destes dias. Talvez fosse mais terapêutico ter chorado um bocadinho a cada dia, mas não ando de lágrima fácil. Aconteceu num abraço de despedida à mana que viajaria nessa noite para o outro continente mais a Sul, num agradecimento tão grande por este voo voluntário que demonstra que as aves migratórias sabem voltar a casa na época certa. Foi muito bom quebrar a espera até ao Natal para a ter aqui neste entretanto a dar-me colo a mim e ao Manel.

 

Entretanto, o dia de hoje (o que tinha apostado ser o dia do take off da febre) afinal não foi fácil, somando mais alguma temperatura em pico e outras complicações.

A forma como encaro o hoje é um olhar para uma carta mais do internamento que nunca se vê só mas como resulta e combina com as outras. Estou sempre à espera de um trunfo, do virar do jogo, mas ainda nada. Pode ser que amanhã, talvez.

 

Ontem e anteontem também esperava pelo amanhã e surgiu sempre alguma complicação.

 

Sinceramente ajudava se eu tivesse mais fé e a capacidade de entregar a Deus o que fosse do amanhã, sem me preocupar. Mas não vos minto. Não tenho essa capacidade.

 

Rezo, depois zango-me, volto a rezar. Pareço uma garotinha que puxa as saias da Mãe a pedinchar, a pedinchar e se não sou logo atendida faço birra desta fé pequena.

Quando estou ansiosa com a febre até penso, ontem andei eu a rezar o terço para isto?! Eu nunca rezava antes, mas por motivação do Padre António, ousei fazê-lo caindo no ridículo de usar a internet do telemóvel de noite no Hospital, para verificar a ordem e quantidade de Pai Nossos e Avé Marias (decidindo que nesta primeira fase não faria meditação dos mistérios, até ganhar calo para avançar para a oração completa). E à primeira subida de temperatura revolto-me e acho que tudo isto já é demais para eu aguentar assistir e resistir. Decidi parar com os meus terços improvisados no Domingo.

 

Hoje, depois do jantar no refeitório do Hospital, seguia pelo corredor desanimada… a pensar no que foi e no que eu não sei e virá.

 

Posso parar os terços e orações, mas pouco depois descubro-me desanimada, sem alívio dessa ruptura. E olho para a cruz ao fundo do corredor, sabendo que é a porta da Capela. Neste internamento ainda não tinha ali entrado. Pensei num impulso, não vou perder tempo… não adianta. Mas a fé pequena ainda assim pôs-me lá dentro. Ninguém a rezar e eu senti-me confortável naquele cubículo menos frio que o resto do Hospital, vazio de gente como se de propósito, para que eu não me sentisse envergonhada da pouca fé que até ali me moveu.

 

Nem sei porquê mas fui directa à Bíblia aberta com leitura do dia e li o seguinte da Carta de Romanos:

Irmãos: Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós.
(…)
De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver?
Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.

 

Leio esta Carta e arrepio-me… parecia ali aberta de propósito para mim, para me ensinar em poucas linhas, o que é a esperança e a paciência, sem condenação pelos meus desligamentos.

 

Hoje volto à oração, mesmo que não saiba se é já amanhã o dia em que tudo melhora.

 

 

 

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16 comentários

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De Mina Sousa a 30.10.2013 às 00:08

Fiquei tão emocionada com este post. Aqui em casa também estamos a rezar pelo Manel. Beijinhos, Mina Sousa.
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De Monica a 07.11.2013 às 22:57

Obrigada Mina, um beijinho grande para voces e para o novo rebento!
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De cristina de sousa a 30.10.2013 às 00:52

Amiga Monica, também eu ando com falta de vontade de chorar, mas não me contive nestas tuas palavras tao humanas que me fazem acreditar que a humanidade afinal tem salvação. São pessoas como tu que me garantem essa esperança, essa fé em acreditar que o bem existe.
Nestes tempos de pessimismo, tu és uma alegria, uma esperança. Nunca te desanimes porque achas que tens pouca fé, na verdade tens muita e muita força e muita coragem. Acredito que na capela do hospital nao estavas sozinha. Obrigado pelo que escreves. Sou e serei tua amiga para a vida.
beijos
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De Alexandra a 30.10.2013 às 09:59

No meu caso, nos momentos realmente maus pensava sozinha para mim "alguma coisa de muito boa há-de estar para vir de certeza"....
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De Monica a 07.11.2013 às 22:58

a esperança de facto consegue mover-nos quando pensamos que já nao aguentamos mais. obrigada pela partilha. bjs
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De Carla Santos a 30.10.2013 às 12:09

Conhecemo-nos há muito pouco tempo... mas mesmo assim considero a Mónica uma das pessoas com mais coragem que conheço e sempre com aquela tranquilidade no olhar e um sorriso nos lábios. Coragem, força e muita fé... Tudo vai correr bem!
Um beijinho grande para si e para o Manel <3
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De Monica a 07.11.2013 às 22:58

Carla não é preciso fazer-me chorar ok?
um grande beijinho
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De Ana Rosado da Fonseca a 31.10.2013 às 07:35

Querida Monica, ja tão nossa aqui de casa, mais beijos e mais carinho e mais um abraço do tamanho da força que queríamos dar te aí, em pessoa.
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De Monica a 07.11.2013 às 22:59

obrigada pelo vosso abraço que senti aqui deste lado!
mts bjs
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De Ana Rosado da Fonseca a 31.10.2013 às 07:35

Querida Monica, ja tão nossa aqui de casa, mais beijos e mais carinho e mais um abraço do tamanho da força que queríamos dar te aí, em pessoa.
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De Maria Joao Fonseca a 31.10.2013 às 23:03

Monica. O teu amor pelos teus filhos.
A forca que tens, tudo o que tens passado e a esperanca que volta sempre sao sem duvida uma forma de fe. Beijo grande
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De Monica a 07.11.2013 às 22:59

os meus filhos são a minha maior força.
<3
beijinhos
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De Maria João Cabral a 05.11.2013 às 14:32

"No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que existe.
E não só sabem que existe,
Como também sabem o que lá tem dentro.

Dentro da alma,
Lá bem no centro,
Pousado numa pata,
Está um pássaro.
E o nome desse pássaro é o pássaro da Alma.
E ele sente tudo o que nós sentimos:

Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá

Em todos os sentidos dentro do nosso corpo, sofre muito.

Quando alguém nos ama,
O pássaro da alma dá pulinhos
De contente,
Para trás e para a frente,
Vai e vem.

Quando alguém nos chama,
O pássaro da alma põe-se logo à escuta da voz,
A fim de reconhecer que tipo de apelo é.

Quando alguém se zanga connosco,
o pássaro da alma recolhe-se dentro de si,
Tristonho e silencioso.

E quando alguém nos abraça, o pássaro da alma
Que mora no fundo, bem lá no fundo do nosso corpo,
Começa a crescer, crescer,
Até encher quase todo o espaço dentro de nós,
Tão bom para ele é o abraço.

Dentro do corpo, no fundo, bem lá no fundo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que ela existe.
E ainda nunca,
Nunca veio ao mundo alguém
Que não tivesse alma.
Porque a alma entra dentro de nós no momento em que nascemos
E não nos larga
- Nem uma só vez –
Até ao fim da vida.
Como o ar que o homem respira
Desde a hora em que nasce
Até à hora em que morre.

Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma.
Ah, isso é mesmo muito fácil:
É feito de gavetas e mais gavetas.
Mas não podemos abrir as gavetas de qualquer maneira,
Pois cada uma delas tem uma chave para ela só!
E o pássaro da alma
É o único capaz de abrir as gavetas dele.
Como ?
Pois isso também é muito simples:
Com a segunda pata.

O pássaro da alma está pousado numa pata,
E com a outra – que em descanso está dobrada sob a barriga –
Roda a chave da gaveta que quer abrir,
Puxa pelo puxador, e tudo o que está dentro dela
Sai em liberdade para dentro do corpo.

E como tudo o que sentimos tem uma gaveta,
O pássaro da alma tem imensas gavetas.
A gaveta da alegria e a gaveta da tristeza.
A gaveta da inveja e a gaveta da esperança.
A gaveta da desilusão e a gaveta do desespero.
A gaveta da paciência e a gaveta do desassossego.
E mais a gaveta do ódio, a gaveta da cólera e a gaveta do mimo.
A gaveta da preguiça e a gaveta do vazio.
E a gaveta dos segredos mais escondidos,
Uma gaveta que quase nunca abrimos.
E há mais gavetas.
Vocês podem juntar todas as que quiserem.

Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro
As chaves a rodar e as gavetas a abrir.
E outras vezes é o pássaro quem decide.
Por exemplo: a pessoa quer estar calada e diz ao pássaro para abrir
A gaveta do silêncio. Mas ele, por auto-recriação,
Abre-lhe a gaveta da fala,
E ela desata a falar, a falar sem querer.

Outro exemplo: a pessoa quer escutar pacientemente
- E em vez disso ele abre-lhe a gaveta do desassossego
Que faz com que ela se enerve.

E acontece que a pessoa tenha ciúmes sem qualquer motivo.
E que estrague justamente quando mais quer ajudar.
Porque o pássaro da alma nem sempre é disciplinado
E às vezes dá-lhe trabalhos...

Agora já compreendemos que cada homem é diferente do seu semelhante
Por causa do pássaro da alma que tem dentro de si.
O pássaro que em certas manhãs abre a gaveta da alegria,
E a alegria jorra para dentro do corpo
E o dono dele fica feliz.

E quando o pássaro lhe abre
A gaveta da raiva,
A raiva escorre de dentro dela e
Domina-o totalmente.
E até que o pássaro
Volte a fechar a gaveta
ele não pára
De se zangar.

E quando o pássaro está de mau humor
Abre gavetas que dão mal-estar.

E quando o pássaro está de bom humor
Escolhe gavetas que fazem bem.

E o mais importante – é escutar logo o pássaro.
Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos.
É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios.
Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas
Dentro de nós.

Há quem o ouça muitas vezes.
Há quem o ouça raras vezes,
E há quem o ouça

Uma única vez na vida.

Por isso vale a pena
Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia,
Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós,
No fundo, lá bem no fundo do corpo."
Michal Snunit – Pássaro da Alma
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De Monica a 07.11.2013 às 23:00

não conhecia! lindo
<3
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De Maria joao Cabral a 09.11.2013 às 13:39

È de uma escritora israelita que escreve para crianças, sao lindos os seus livros, De maos dadas com Deus, nao o li mas dizem que é lindo. Beijinhos.

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