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O mês de Novembro de 2012 foi completamente intenso e esgotante. A cirurgia para extracção de um tumor cerebral foi marcada para meados desse mês e a cada crise que assistia, suspirava com pressa pelo sucesso dessa operação, apesar do medo de a enfrentar.

Há uma sensação muito estranha que nos ataca nestas situações, sabemos que o melhor é avançar, mas quanto mais corre a areia do tempo, mais se aperta o coração com medo e nos tomam de assalto pensamentos de vida ou morte. Se o Manel morrer como explico tudo ao Francisco? Como vou ter coragem de arrumar as coisas? Será que estes são os últimos banhos e biberons que dou ao Manel? Se correr mal, tiro ou não tiro as fotografias espalhadas pela casa?

Estes medos não são fáceis de dividir com os outros. Não se quer preocupar família e amigos que também andam cabisbaixos e receosos. Assim decidi partilhar estes temores com um médico, pois comecei a sentir que era melhor recorrer a essa ajuda, antes mesmo de enlouquecer. Cheguei à consulta muito despachada, mas olhando para as pessoas da sala de espera fiquei um bocadinho apavorada (será que esta gente já ensandeceu?). Peguei numa revista e tentei convencer-me que estava ali de prevenção e não para recolher um saco de medicação e um atestado de loucura, nem valia a pena olhar para o lado sequer.

Depois de me sentar no divã deu-se finalmente um efeito automático de choro compulsivo que me enervou… (pensei para mim: controla-te já senão ainda entra aqui um senhor com um colete de forças para te levar direitinha para o hospício). Devagarinho comecei então a contar que a doença do Manel me tinha explodido sem aviso, como alguém que pisa um campo de minas sem saber ao que ia. Consegui explicar os meus medos e perguntei se era afinal normal ter estes pensamentos horrendos, quando sempre fui uma pessoa tão optimista. Não é que pensasse a toda a hora que tudo ia correr mal, mas não conseguia controlar que, de vez em quando, me trovejassem raios de disparates a tentar queimar as esperanças. Havia porventura alguma técnica especial que os médicos recomendassem aos seus doentes desesperados pacientes impacientes? Descobri que tudo era normalmente gerido na minha cabeça tonta atendendo às circunstâncias e que, para grande decepção minha, não existem fórmulas mágicas de pára-raios. Processando isto pela positiva: OK não estás maluca, só estás triste o que é normal. Processando isto pela negativa: Não há cá truques maravilha para desviar tristezas, mas tomar um ansioliticozinho pode ajudar. Pedi ao Médico para não me entupir de comprimidos, já que tinha de continuar bem alerta para as crises do Manel e ter capacidade para tomar conta das crias sem ter um ar embaciado e zombizeiro.

Cheguei a casa com menos peso na alma (apesar dos problemas continuarem todos nessa balança) e decidida a continuar a dar conta do recado sem depressões e maluquices. Quando enfrentamos as doenças regulares das crianças, sofremos quando os vemos abatidos, mas tentamos logo adivinhar qual é o tempo médio de recuperação e preparamo-nos para combater esses dias de maleita. Mas quando a doença que enfrentamos não tem cura, não há qualquer alívio de resolução a prazo e até cresce a ansiedade que tudo se pode complicar e muito.

Não me valia de nada ganhar o euromilhões, solicitar um dador de um órgão, só podia mesmo era implorar para que rezassem pelo Manel e.. quem sabe, um milagre até podia mudar as nossas vidas.

Comecei então a criar uma corrente de oração pelo Manel, por intercessão do Papa João Paulo II. A fé pode ter uma força que move montanhas e uma Mãe, como no meu caso, até sente que vai ao espaço se de lá pudesse trazer a cura. Havia gente que eu não conhecia mas que me dizia estar a rezar pelo Manel, o que é extraordinário. Para além da freira da bolacha, rezam pelo Manel as freiras de um Mosteiro de Sesimbra (que o conheceram e encheram de miminhos), de Lisboa, as Carmelitas de Fátima, freiras de Mosteiros em França e até no Brasil e Chile, bem como as equipas de Nossa Senhora (estas mobilizadas pelos meus pais).

Neste desespero, consegui falar com o Padre António da Paróquia de Carcavelos (um Padre que consegue encher uma igreja de gente velha e nova para escutar homilias que não dão vontade de dormir mas sim de mudar a nossa vida) que me aconselhou apenas a entregar o meu sofrimento a Deus, que isso equivaleria a muitos terços que eu em aflição nem era capaz de rezar. O Padre António consegue ser surpreendente na simplicidade do que diz e na forma como consegue entender e sossegar o outro, garantindo que rezaria muito pelo Manel e pediria a muita gente para se unir nesta oração.

Esta doença, apesar de terrível, conseguiu envolver muita gente em oração, desde os mais descrentes até às crianças que conseguem ter uma fé tão pura, sem interesses, nem conveniências ou desculpas. Houve uma amiga minha que me disse que as preces das crianças são como uma via verde para o Céu, fazendo-me assim sorrir e ter mais esperança, pois todos os priminhos do Manel rezam por ele, com os colegas da escola e até dos escuteiros. Decerto que essas orações já tinham passado a portagem do Céu, pelo que acreditei que seria tudo uma questão de processamento a seu tempo.

Podia estar triste, mas não sozinha.

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