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Chegámos. Se tudo correr bem volto a abraçar o Francisco na Sexta.
Partiu-me o coração ouvi-lo ontem perguntar entusiasmado onde íamos, quando me viu a organizar a mala.
Expliquei que os Drs. queriam ver melhor o Manel, mentindo que tudo seria num instantinho. Mas o pirata viu uns pacotinhos de papa por ali e contou 5.
- Mãe vais ficar no Hospital 5 dias?! - deduziu para meu enorme espanto.
- Sim Francisco. Passa num instante - tentando eu desvalorizar e não rectificar que seriam mais.
- Mas isso são muitos dias Mãe! Os Drs. não podem vir cá a casa?
- Boa ideia Francisco! Amanhã vou perguntar isso aos Drs. E depois a Mamã vai trazer-te um presente!
- Só um? Podem ser quatro?
Só aqui descomprimi quando passámos à fase da negociação.

Hoje rezo muito pelo Manel que se sente aqui em casa. Agora dorme tranquilo nesta cama de grades sem se preocupar com o amanhã.
Mas também rezo pelo meu Francisco que cresce sempre mais um bocadinho a cada internamento do mano.
Não vos pondendo poupar a isto meus queridos, então ao menos que possamos crescer juntos.


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Em preparação

22.10.13

Está quase. Amanhã entramos cedinho no Hospital para o que tem de ser na Quinta Feira.

Felizmente o Manel não tem noção para o que vamos, não dramatiza e não estranha as gentes de bata branca, sorrindo para todos como se fossem amigos chegados, sem guardar qualquer ressentimento pelas agulhas e bisturis.

As enfermeiras já o conhecem e não precisam sequer de consultar a ficha para o chamar logo pelo nome. Até a Senhora da copa me cumprimenta nos corredores como se eu fosse habitué. Desta vez já conhecemos os rostos, recantos e procedimentos. Não estranhamos os cheiros de desinfectante após a passagem da senhora da limpeza nem do bafo de sopa que se instala após as refeições igual ao de um jardim-escola (antes fosse). Desta vez não nos vamos admirar com o frio do bloco operatório nem com os choros e guinchos, apesar de nos continuarem a inquietar.

Ainda assim, não é mais fácil só por sermos repetentes. Já reconhecemos o terreno e as pessoas, mas o incerto é igual e o conhecimento das complicações até é maior. De qualquer forma, chegámos a um momento em que tem de ser.

Felizmente o Francisco terminou hoje oficialmente a sua quarentena (apenas a 24 horas do internamento do Manel já conseguimos arriscar deixá-lo voar, pensando que, no pior dos cenários, qualquer doença só terá tempo de incubar no Kikinho, poupando o Manel). Combinámos fazer uma visita surpresa aos amigos da escola e levar-lhes um bolinho de chocolate para o lanche. Não eram 9 da manhã e já o bolo descansava no forno a salvo das mãos do Francisco enquanto os restos eram trucidados por este. Enchi-me de alegria nesta excitação e por assistir babada aos pulinhos e abraços com que os amigos receberam o Francisco que se desfez em sorrisos, inchando o peito por se sentir tão importante naquelas vidas pequeninas.

Amanhã não é um dia fácil, mas tenho fé que o saldo desta cirurgia possa ser muito positivo.

 As horas de espera vão parecer as mais longas de todas, mas a família (até a mana do meio aterrará neste episódio vinda do outro continente) e amigos estão connosco para nos sossegar e ajudar a virar a ampulheta deste mau tempo.

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Na contingência da antecipação da cirurgia do Manel, improviso um jantar familiar em casa para tentar descomprimir as incertezas e melhor digerir a espera em companhia.

Pouco prudente e iluminada, optei por encomendar comida indiana e tomar um comprimidinho de protecção gástrica convencida que o mesmo me ajudaria a passar ilesa nessa batalha gastronómica, saudosista da minha vesícula que já não mora em mim.

O forte tempero que decidi dar à minha noite de sexta feira aliado à ansiedade por qualquer chamada de check in no Hospital de São Francisco cozinharam-me um fim de semana verdadeiramente bombástico.

Sábado à noite, fui levada pelo Maridão para a urgência da CUF. Esperei, esperei e continuei a esperar, com sobressalto a cada toque das senhas, rosnando quando via alguém entrar com aspecto clinicamente mais saudável que o meu. Nestas circunstâncias, e apesar da fraqueza, apodera-se de mim o que há de mais ruim. Não obstante chegar ali por culpa própria e não vítima de qualquer maleita alheia à minha vontade, sinto-me no direito de ser imediatamente atendida e posta a soro, porque aguentar uma gastroentrite em apenas metro e meio de gente (de vesícula amputada), deveria dar direito a entrada imediata sem parar na casa partida.

Que infelicidade e fraqueza a minha, o meu Cunhado também abusou da especialidade Goense (tanto ou mais que eu), mas tem cerca de metro e oitenta de altura que revestem a sua vesícula, pelo que se aguentou “como gente grande”.

A Médica, perspicaz, na triagem, não esteve para grandes conversas e topou logo a cena:

Mulher de 32 anos, com gastrite crónica, sem vesícula, em estado de ansiedade, ingeriu comida indiana (como se eu me tivesse deliberadamente intoxicado ou drogado!). Dirigiu-me então aquele olhar de quem abana a cabeça a uma menina mal comportada, passando-me nessa expressão um atestado de estupidez e ordem para ficar num cantinho a soro, de castigo pelo meu crime alimentar.

Era uma e meia da manhã e o Maridão, sem me condenar pelo disparate, dá-me amorosamente a mão no regresso a casa para me reconfortar da espera e reprimenda médica, apenas referindo em tom paternal “tens que ter mais cuidado”.  Enquanto me lembrar desta, descansa que vou ter mais cuidado para não passarmos o serão de Sábado na urgência… até ouvi dizer que há sítios tão ou mais apinhados de gente com melhor disposição e aspecto mais saudável.

No dia seguinte, a Mamã faz-me canjinha e felizmente ninguém chama este caco para o Hospital.

Bato 3 vezes com a mão no peito assumindo a culpa do disparate, tendo já sofrido a penitência nos efeitos secundários.

Mas deste  breve episódio indiano na minha vida é possível retirar alguma boa moral (de notar que apenas hoje sou capaz de tal exercício, porque no Sábado só conseguia retirar de mim vomitados e afins):

Nos próximos dias a comida do Hospital até me vai saber a Pato!  Irra!

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Ontem ligaram-me do Hospital, pedindo-me para manter o telemóvel ligado durante o fim de semana.

Parece que não está certa a menina da cirurgia de Segunda Feira pelo que o Manel poderá a vir chamado como suplente.

Sinto-me com se estivesse numa sala de embarque, à espera de notícias sobre a hora de um voo, tentando controlar o medo e o pânico de voar (ainda com os pés na terra).

Até pode ficar tudo na mesma e o Manel apenas ser operado no dia 24 como inicialmente agendado. Mas não há certeza.

E como é difícil gerir a incerteza e a ansiedade.

Nunca marquei uma viagem last minute, nem sou daquelas pessoas que correm descontraídas na última chamada.

O telemóvel agora está colado a mim nesta espera da chamada. A enfermeira até me disse para fazer a mala e preparar tudo como se estivesse pronta a entrar na maternidade. Claro que lhe respondi que para a maternidade vamos sempre ansiosas mas com um bocadinho mais de alegria.

Ainda não fiz a mala. Não tenho vontade. Mas, mais uma vez, não posso controlar nada, pelo que "se é para acontecer, pois que seja agora"...

 

 

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O Manel começou a dizer Mamã. Hoje não me deito sem beber um cálice de vinho do Porto para comemorar esta enorme vitória!Tchin Tchin!

 

O Manel já o tinha dito em Julho, pela primeiríssima vez às duas da manhã, o que me fez acordar num sobressalto e num esfregar de olhos e de ouvidos para ter certeza se o teria ouvido bem. Não sei porquê, mas e como diria Dona Milu, mistério, não voltou a repetir essa palavra até agora, apesar de todas as insistências.

 

Assim, já tinha passado a apostar mais no "olá", cuja entoação cantamos os dois assim que eu chego a casa.

 

Agora esta surpresa de ser capaz de me chamar "Mamã" aos 18 meses (feitos ontem), inundou-me de orgulho. Não posso nem devo comparar as metas do Manel com as de outras crianças de 18 meses. Sei que o meu Manelocas diz "Mamã" e "Olá" e eu fico derretida, porque sei todo trabalho e esforço que percorrermos para chegar a estas palavras. E a palavra "Mamã"... é a mais especial e doce de todas, tornando esta vitória  inesquecível!

 

Perdoem-me mais umas linhas de baba só para acrescentar que o Manel faz uma carinha e uma expressão doce com a boquinha ao dizer Mamã completamente encantadora... um charme de Babyinho (como tantas vezes o Kiko lhe chama).

 

 

Não queria terminar sem sublinhar que o Francisco também anda feito um príncipe encantado a mimar a sua Mamã, oferecendo-me flores e até autocolantes em forma de coração (daqueles  que vêm colados à fruta do supermercado!). O rapaz faz questão, enquanto eu descasco a frutinha para o Principe Francisco, de afixar orgulhosamente o respectivo autocolante na minha camisa, parecendo assim um cromo igual aos dos peditórios que as velhotas nos colam com tanta seriedade!  O Francisco cola mesmo esse coração a uma expressão séria, recomendando que não o tire da camisa e assim regresse ao escritório para me lembrar sempre dele.... um romântico!

 

 

É que um carinho às vezes cai (tão) bem....

 

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Respirar fundo

16.10.13

Começar o dia ainda de coração apertado. Rezar, abraçar.

Visitar a campa da minha avó para conversar naquele silêncio nosso que ninguém consegue escutar e ali segredar um pouco, sem pressa, pedir colo. Acalmar.

Seguir para Lisboa, mudando o ritmo dos sentimentos e tentar achar algum rebuliço de cidade que me distraia. Reencontrar amigas de há muito e conversar como se assim fosse todos os dias.

Disfrutar a estrada marginal no regresso e abraçar os Padrinhos mais queridos, sonhar na remodelação da casa do mais velho dos onze irmãos onde já se ouvem os martelos.

Chegar a casa e quebrar uma rotina de quarentena, por não resistir a este tempo que ainda me sabe a Verão. Levar as crias à rua a fim de conseguirmos respirar uma mão cheia de ar puro que vou tentar armazenar como um valioso tesouro para os dias que já em fila se apressam a entrar nas nossas vidas. Correr, rir e aquecermo-nos juntos com os meus Pais num Sol morno que se está quase a despedir.

No final do dia, trazer comigo as sobrinhas que me enchem a casa de tons rosa e vozes mais delicadas, dançarmos como princesas.

Assim receber o Maridão com um sorriso maior do que o de ontem e ficar tão feliz com o regresso da mana mais velha.

Hoje estou melhor, consegui respirar mais fundo.

 

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16.10.13

Ontem vi um post no mural do Facebook do Padre António que anunciava a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima por Carcavelos, no dia 17.

 

Hoje passei de manhã na igreja para pedir que nas intenções dessa missa do dia 17 o Manel fosse incluído (continuo sempre com aquela sensação que só as minhas orações não bastam e para este problema tão colossal preciso mesmo de um batalhão de gente a implorar ao céu).

 

Quando a Senhora do atendimento me perguntou por quem pedia essa intenção, respondi que era pelo meu filho que ia ser operado à cabeça no dia 24. A Senhora levantou a cabeça e olhou-me com os seus olhos idosos inundados de lágrimas. Respondeu-me que o filho dela foi também operado há um mês para extrair um tumor (aquele horrivelmente maligno ao contrário do Manel, que é benigno de qualificação apesar de tão malvado). Percebi logo que aquele filho que me falava a Senhora era afinal irmão de uma amiga dos meus Pais que muito reza pelo Manel e até me ofereceu uma relíquia de João Paulo II. Há dias tinha trocado emails com a filha daquela Senhora, prometendo lembrar nas minhas orações aquele irmão e o meu Manel.

 

Sorrimos pela coincidência, envolvemo-nos num abraço tão espontâneo de consolo mútuo  e choramos juntas, apercebendo-nos que os nossos corações (um tão jovem e o outro tão preciosamente antigo) se sobressaltam exactamente com o mesmo ritmo de aflição de Mãe… e foi tão reconfortante.

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3 Irmãs

15.10.13

Hoje não estou nos meus dias. Não houve nenhum contratempo, nenhuma notícia inesperada, mas só um aperto no coração daqueles que nos comprimem todo o dia e são resistentes e desobedientes às nossas ordens.

 

Em dias como este, reconheço ainda melhor o gosto de uma ligação siamesa que, apesar dos feitios tão diferentes, me prende às minhas irmãs.

Ter duas irmãs garante-me nunca ter uma mão vazia. Se uma não pode atender o telefone, ligo de imediato à outra, nunca fico só. E posso ligar-lhes todos os dias, seja para contar uma graça em 2 segundos ou simplesmente confidenciar, sem disfarce nem rodeios, que estou triste.

Se alguma de nós está mais preocupada, as outras duas congeminam em bastidores se podem fazer alguma coisa para animar ou estar ainda mais presente na vida daquela. Quem seria eu sem essa dupla infalível?

 

A minha irmã mais velha sempre foi a mais mãezinha, conselheira, um porto seguro que mora ao lado. Em pequena pedia-lhe muitas vezes para me aninhar junto dela, nesse mimo simples de manas que se protegem. E quantas outras vezes, ao adormecer,  rompia o silêncio e lhe perguntava… já estás a dormir?

- Não, porquê?

- Nada, era só para saber…

Gostava daquela companhia cúmplice e do conforto de saber que, uma mana dormia ferrada mas outra ainda não.  É inexplicável o porquê destas coisas que aos olhos dos outros até podem não ter significado nenhum, mas para mim era um adormecer colectivo.

 

Com a mana do “meio” podia brincar muito, refilar, acordar e quebrar pactos de câmbio de roupas, pedir desculpas, e brincar muito, refilar.... Sendo eu a mais nova, muito gostava de me vestir e, literalmente, me por nos sapatos dela.

 

No nosso quarto aprendemos muito cedo a dividir os nossos territórios (onde coabitavam posters de grupos de rock com os meus pequenos póneis). No carro eu sabia que o lugar do meio era o meu.

 

Na cozinha tínhamos um calendário de divisão de tarefas, cujo procedimento de trocas implicava um mini curso de técnicas avançadas de negociação e de subornos.

 

Quando chegava a conta do telefone discriminada, a casa virava uma colmeia cheia de fumo! Por ali andávamos em ziguezagues tentado apurar antecipadamente o resultado do rigorosíssimo ritual do meu Pai nas respectivas deduções de mesada.

 

Tenho saudades de ser pequena e entrar na cozinha para interromper o estudo da minha irmã mais velha com o meu cunhado e me por ali, “de velinha” à conversa , só para tentar perceber se já namoravam ou não. E de me pôr à janela para controlar se a do meio saía de mota ou de carro e com quem ia, imaginando para onde.

 

E o olhar meigo e doce que eu improvisava para tentar que alguma delas me levasse a sair. Se resultava, lá ia eu, orgulhosa e tão desesperadamente agradecida por me levarem, vendo-as como as minhas heroínas e super modelos a seguir.

 

Hoje mantemos estas ligações ainda mais estreitas, que até superam longas distâncias entre continentes e quaisquer interferências do skype.

Sabemos sempre o que nos vai a cada uma na alma e, se por algum acaso, não conseguimos de imediato fazer alguma actualização, não descansamos enquanto não nos inteiramos rapidamente de tudo.

 

Temos gostos e feitios muito distintos, profissões em áreas tão diferentes, mas nas relações de irmãs não nos encontramos nos pontos em comum (como nas nossas coordenadas da amizade) mas nas cumplicidades mais antigas, naqueles olhares que não precisam de legendas, nas desculpas depois das zangas mais acesas, no desabafo que não precisa de qualquer introdução em resposta à pergunta do “como estás”, no poder dizer sem mais que achamos que a outra não razão, que estamos sem paciência para ouvir ou combinar aquele jantar….  

É ter no coração esse mundo de contrários que resiste a tudo, de nada depende, e tanto nos preenche e molda enquanto crescemos juntas ao longo da vida.

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Na Sexta-feira tive a oportunidade única de participar num workshop organizado pela Operação Nariz Vermelho. Fui apanhada de surpresa, não estava à espera, mas as melhores coisas da vida muitas vezes surgem nestes acasos, para os quais nem sequer temos tempo de fazer a nossa mala de expectativas.

O workshop teve como tema “À procura do seu palhaço interior”, pelo que foi excelente tudo acontecer num imprevisto da minha agenda, pois de outra forma eu teria passado dias a alimentar um medo ou uma má vontade de encontrar a palhaça que vive dentro de mim à frente dos outros.

No entanto, e em menos de 5 minutos, estava quebrado o gelo com ordens para esbracejarmos e nos saracotearmos, trocando de lugares, cada vez que fosse dita a palavra “Copacabana” (que tamanha estupidez!). O grupo não ofereceu resistência às ordens do formador e, como que por magia, logo no início parecíamos umas crianças a brincar aos índios, entre risotas de descompressão e de admiração por afinal termos a coragem de alinhar ultrapassar a nossa zona de conforto.

Seguiram-se outros jogos e brincadeiras destinados a que pudéssemos, um a um, encontrar e tirar a nossa máscara (que mais não é do que a nossa postura habitual de defesa, os nossos comportamentos reflectidos perante os outros). É natural que todos usemos máscaras desde muito cedo na vida, para sermos aceites, admirados, respeitados, normalmente integrados.

Só mesmo tirando essa máscara (que nos salvaguarda do que realmente somos) é que conseguimos encontrar espaço para colocar um nariz vermelho. Mas, para alcançar a naturalidade, espontaneidade e atitude de um palhaço, ainda temos que fazer um pouco mais… porque isso que já nos desarma afinal não chega.

O Dr. Pipoca (Mark Mekelburg, um dos fundadores da Operação Nariz Vermelho) falou-nos que entre 60%-80% dos casos não estamos a viver no presente, mas a processar o que vivemos no passado, ou já a projectar algo que ansiamos ou tememos no futuro. De facto, é difícil darmos a devida importância ao dia de hoje sem o estrangularmos com os pensamentos do ontem ou do amanhã – porque ontem é que foi muito bom ou muito mau, porque amanhã é que será por isto ou aquilo, porque hoje reagi assim porque já sei como foi antes e como vai ser depois…

O palhaço não se preocupa com o ontem nem com o amanhã. Vive o presente com uma projecção de fantasia em dose adequada a quem o vê, dando importância às coisas mais banais, que ganham graça se lhe dermos uma relevância desmedida.

A doença do Manel tem-me ajudado muito neste exercício de viver o dia de hoje. De facto, posso chorar pela saudade dos 3 meses em que vivi alegre sem suspeitar daquela patologia, ou cair num pranto se recordar os últimos internamentos e se pensar no incerto e mau que ainda está para vir.

Viver um dia de cada vez não se aprende num workshop (apesar de ser tão bom termos aquele momento para pensar nisso), nem acontece por magia por nós acharmos que assim é que devia ser.

Eu não sei muito bem quando é que consegui concentrar-me mais no dia de hoje (sim porque ainda estou em fase de tentativa de viver assim nesta filosofia), mas sei que no início da doença do Manel eu queria muito conseguir fechar portas dentro da minha cabeça para controlar os pensamentos que se escapavam constantemente por onde não deviam.

Ultimamente (talvez por já ter passado tantos dias de hospital que me ficaram tatuados como traços de calendário de presidiário e assim ter dado início à caminhada da doença), começo a conseguir aproveitar cada dia, mesmo as segundas-feiras, mesmos os dias mais simples que parecem que são apenas mais um por não terem nada que pareça muito relevante de assinalar na agenda.

A rotina de acordar em mil beijinhos e cócegas às crias, de viver as brincadeiras de todos os dias, do embalar uma boa noite com festinhas para aconchego até ao dia seguinte, fazem-nos ganhar os dias banais sem precisarmos de estar de férias, fazermos passeio, um programa fora de portas especial (que até sempre seriam impossíveis em quarentenas).

Infelizmente pelos piores motivos, estou a começar a disfrutar dos meus dias assim, simples mas todos eles inesquecíveis porque tenho o Manel comigo, gargalhando das graças da Mãe, do Pai (porque nos é mais fácil sermos palhaços em casa) do Francisco, dos Avós, dos primos, dos tios, dos amigos…

Há pouco falava ao telefone e notei que mencionei em modo automático que a operação do Manel é já para a semana (dando conta que os dias correm e já não são duas semanas, já não há nenhuma no meio sequer para me folgar a distância até esse futuro).

Ninguém sabe o que vai acontecer para a semana, mas por agora, enquanto ainda consigo racionalizar e controlar um pouco as emoções, não quero saber, quero aproveitar a dar muita vida ao meu palhaço interior junto do Manel e aproveitar para rezar para nessa altura ter a força de um gigante e não ter medo

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Ajudar a Nonô

14.10.13

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Seu Jorge

14.10.13

 

Eu sabia que ia saborear todos os momentos, e assim foi!

 

 

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A manhã de hoje foi completamente alucinada!

 

À saída de um workshop organizado pela Operação Nariz Vermelho (do qual darei conta num próximo post) encontrei o Mister Paulo Bento e, para minha grande surpresa, a D.ª Dolores (Mãe do Cristiano Ronaldo).

 

Deixando na sua tranquilidade o Mister, importa aqui dar registo a este encontro épico com a Mãe do nosso Craque da Selecção:

 

A D.ª Dolores ajuda a confirmar o ditado: por trás de um grande Homem (Ronaldo) está sempre uma grande Mulher (não a russa da Irina, naturalmente, mas a poderosíssima e sempre presente D.ª Dolores).

 

Após uma breve prosa entre ambas, a Senhora afeiçoa-se a mim de tal forma que já me queria tratar por norinha. Posto isto, educadamente  expliquei que apesar de gostar muito do Ronaldo, bolo do caco e brisa de maracujá, sou uma mulher muito bem casada (felizmente com um homem que até não usa Clutch, vulgo pochete).

 

Nas revistas nunca vemos a Irina assim abraçada à futura sogra, "de maneiras" que espero que máfia russa não venha atrás de mim!

 

 

 

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Quando saí de casa esta manhã dei um abraço de despedida ainda mais especial ao Manel, lembrando-me de coração apertado que estava marcada para hoje a nova cirurgia.

O maior transtorno do adiamento de apenas 2 semanas foi mesmo o prolongar da clausura do Francisco em quarentena (apesar do rapaz nem se queixar e do Manel delirar com a companhia do mano a toda a hora, de espalhafato semelhante ao do João Baião no velhinho Big Show Sic).

 

Assim, fui pelo caminho a pensar que de nada vale lamentar contratempos e que assim até tenho mais tempo para mobilizar orações e encher mais um pouco o coração de rua e de sol.

Nestas circunstâncias, o conseguir chegar ao trabalho significa um dia a mais de liberdade, fora do hospital, pelo que se torna fácil à chegada ao destino estacionar o carro e estes pensamentos e pôr mãos à obra após o sagrado café.

 

Pouco tempo depois, já embrenhada nos assuntos a tratar, recebo um email da minha sobrinha Maria. Pela hora em causa, assumo que deu uma escapadela à biblioteca da escola só para me presentear com uma bela mensagem pelo que, mesmo antes de abrir o corpo do email, já eu babava com o gesto da minha pré teenager mais querida.

 

Eis senão quando leio o seguinte (passando a citar, já após revisão ortográfica para não achincalhar a moça):

Olá, titi fiquei a saber que tu precisas de uma secretária por isso vou te mandar o meu currículo....

 

[Pára tudo: Eu não ando em processo de recrutamento de assistente administrativa, mas a Maria ouviu-me há dias suspirar de saudades da minha secretária do antigo escritório, enquanto eu protestava o quanto odeio fazer arquivo no estaminé. Podemos então prosseguir...]

 

Eu chamo-me Maria dos Santos André Cabrita Fernandes, tenho 10 anos nasci a 9 de Abril de 2003. O que lhe posso dizer sobre mim é que dou alguns erros ortográficos, sou uma mulher muito trabalhadora e sou uma pessoa que gosta de aprender de ensinar e que aprende depressa.

Isto é o que lhe tenho a dizer, espero que me ligue o meu número e o que lhe já dei fico à espera.

Muitos comprimentos Maria Fernandes

 

Ora aqui está, o reconhecimento do meu sucesso profissional através da recepção da primeira candidatura espontânea para um cargo no meu estaminé (ignorando para o efeito o facto de a remetente ter apenas 10 anos).

 

Passando à análise da carta de apresentação, a candidata demonstra:

  • Ter confiança (com apenas 10 anos, já se assume como “uma mulher muito trabalhadora” e que gosta de “ensinar”);
  • Ter sentido autocrítico quanto às suas fragilidades (“dou alguns erros ortográficos”);
  • Estar altamente motivada para aprender, reforçando que “aprende depressa”.

 

Nestes termos, apenas não se admite de imediato a candidata em referência (que dá erros mas gosta de aprender e ensinar), devido ao impedimento legal dessa admissão poder ser infelizmente configurada como trabalho infantil.

 

De qualquer forma, descansa Maria que a tia já imprimiu e corrigiu o teu email, para que te possas então dar ao trabalho de escrever 20 vezes as palavras assinaladas com erros. E obrigada por me ensinares a ser uma tia tão bem disposta!

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Chegando o tempo de Outono (ok está imenso calor e Sol mas eu tenho as crias de quarentena em casa) gosto muito de me entreter na cozinha a fazer bolos com a ajuda do Francisco.

Tendo uma criança impaciente cujos olhos giram mais rápido do que a própria batedeira, tento desembaraçar-me com receitas mais fáceis, sem necessidade de pesar ingredientes ou bater separadamente claras em castelo (até porque o Francisco ia dizer que aquele monte de espuma branca não era nada parecido com um castelo e há alturas em que já nem sei como explicar os porquês do rapaz).

Lembro-me que em criança também era assim, uma vigilante da batedeira, sempre de dedinho em riste para tentar fazer uma prova à socapa, implorando para despejar qualquer coisa lá para dentro e no final, tratar da limpeza da taça. Pois que agora me sai na rifa um mini eu ainda mais refinado e com uma confiança de Mestre Silva.

Conseguir enfiar o bolo no forno com o Francisco dentro da cozinha é como superar uma prova de salto em barreiras. Depois da limpeza geral (encarregando-se o Francisco de uma rigorosa pré lambuzagem lavagem da taça) vamos os dois espreitando a porta do forno para ver se a nossa criação cresce, sendo que o rapaz adora tentar convencer-me que passados 10 minutos o bolo está pronto ou que aquele afinal não deve estar bom porque não cresce.

Como quem espera sempre alcança, o momento da retirada do bolo do forno é outra etapa solene de elevada supervisão infantil, misturada com ameaças maternais que não come nada se não se afasta e que se pode queimar, tanto mais que já torrou o juízo quando lhe explico mil vezes que o bolo quente faz mal à barriga.

Finalmente, na hora saborear as fatias, o Francisco exclama como o bolo dele está muito bom, fazendo-me sorrir das suas delícias.

Apesar de parecer tarefa arriscada e perigosa, gosto tanto de partilhar este momento com o Francisco, encher a casa com o aroma destas doçuras de Mãe e Filho (que tanto agradam ao Pai) e saborear os restinhos do bolo do “fim-de-semana” nos serões da nossa semana.

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