Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




No ano passado não pude sentir o Natal.

Eu sabia à partida que iria passar esse Natal no Hospital, uma vez que a cirurgia do Manel tinha data marcada para o dia 20 de Dezembro. No entanto, não me tinha preparado para viver uma noite de Natal cheia de angústia e com um medo iminente de perder o Manel.

O Manel foi transferido precisamente na noite de 24 de Dezembro para os cuidados intensivos do Hospital D.ª Estefânia, com uma infecção grave.

Custou-me horrores não ter autorização para seguir na ambulância do INEM e ser obrigada a fazer um caminho à margem, em lágrimas, numa pressa desenfreada de voltar a estar ao lado do Manel e de tentar adivinhar o que se passaria dentro daquele veículo blindado aos meus olhos e preocupações. Quando estou no trânsito fico habitualmente ansiosa sempre que oiço as sirenes aflitas do INEM e naquela noite o ruído parecia gritar-me sem dó o perigo de vida, sem piedade nem escudo de noite de Consoada.

Sem estar perto e sem poder sentir a mão do meu bebe fiquei num estado de loucura que até então tinha tentado controlar. Naquela altura, porém, já não encontrava motivos para me acalmar e cedi àqueles raros choros soluçantes que não conseguimos abafar. Lembro-me amargamente de estar no corredor do Hospital D.ª Estefânia junto aos então desconhecidos serviços de cuidados intensivos, aguardando que nos chamassem para junto do Manel, trocando olhares de medo com o Rui enquanto segurava com força um cartão com uma imagem do Papa João Paulo II.

Um médico teve então a infelicidade de me dizer que restava aguardar, não poderiam fazer mais nada pelo Manel.

Durante o resto da noite o Manel gemia baixinho e eu com ele, pois se os médicos não poderiam fazer mais nada para além de administrarem os antibióticos, eu tinha o dever de estar sempre ali de vigília, chorando apenas quando ele dormia e tentando motivar uma recuperação milagrosa com um sorriso aliviado sempre que o via acordar.

Pensei tantas e tantas vezes entre orações interrompidas pelo desespero e cansaço que um bebé não podia morrer na noite de Natal. Suportaria privar-me daquele Natal longe do Francisco, das conversas e dos risos em torno da mesa enfeitada e cheia dos preparativos de cada um, mas já não seria capaz de viver um luto a cada Natal. Nem imagino (apesar de infelizmente pensar nisso mais vezes do que seria suposto) como seria suportar a morte de um filho, e muito menos assinalar essa data com o Natal em antítese do nascimento.

O que é certo é que o Manel foi recuperando, não sei se por milagre ou não, mas importa independentemente dos meios dar Graças por essa vida que apesar de tão pequenina e fustigada, resistiu.

Talvez agora entendam melhor a razão pela qual tanto temi o pós-operatório da última cirurgia e fiz questão de pedir aos médicos para agendarem a data com bastante antecedência do Natal.

Este ano, não será apenas mais um Natal para reviver uma rotina especial. Sempre adorei preparar o Natal, organizar uma lista de presentes, combinar entre as mulheres da família as iguarias que enchem a nossa mesa, escolher uma roupa especial para todos nos sentirmos mais bonitos, aguardar na fila da pastelaria Garrett pelo melhor bolo rainha do mundo e petiscar logo ali um sonho quente com um café, distribuir presentes e beijinhos em visitas de última hora...

Se antes escolhíamos um dia em que decorávamos a eito casa, a árvore de Natal e o presépio, este ano tem sido diferente. Sem data marcada, montei o presépio com a ajuda do Francisco numa tarde em que ficou em casa por estar doente. O rapaz melhorou animicamente a cada estudo de planeamento estratégico da colocação das figuras (coitado do burro que tem orelha entretanto colada a super cola 3 e da ovelha que está surda por não ter a sorte do burro) e no fim insistia que queria colocar os angry birds à volta do menino Jesus que para nossa sorte continua ileso nas palhinhas deitado.

Nem imagino como será o “ramo ramo” (eheh como eu gosto de piadinhas secas) de montar a árvore e disfrutar dos serões assim iluminados e animados pelas tentativas do Francisco mexericar tudo à socapa, num equilíbrio ímpar de quem se coloca de biquinhos de pé em cima do sofá. Também imagino os dias de advento do Manel que este ano não só estará em casa, como também prometerá gatinhar contente para a árvore e esgatanhar todos os embrulhos.

Este Natal será vivido assim, sem pressas, mas com muita vontade de saborear cada momento que valerá por dois. Prometam-me que aproveitam todos os vossos dias até ao Natal!

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Ana Catarina Alves a 27.11.2013 às 21:46

Mónica:

Que os dias até a Natal sejam bem saboreados e que este Natal valha mesmo por 2!!!!

Consegues fazer-me chorar e rir em cada post ;)

Beijinho,
Catarina
Imagem de perfil

De Monica a 27.11.2013 às 22:05

Obrigada Catarina, só espero não engordar por 2! bj grande

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D