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Como o tempo aqui no Hospital escorre vagaroso apesar de aflito, tentei aliviar o passar das horas com alguma música capaz de nos trazer mais ritmo e ânimo.

Tudo parece menos dramático se entoarem como fundo as músicas da Carochinha, as quais têm um poder fortíssimo de me hipnotizarem e me porem a cantar (mal, mas a cantar se me for permitido qualificar os meus sons desarmoniosos como canto). Assim vou cantando enquanto meço a febre, aguardo resultados de análises ou decisões médicas. Não seria credível a transmissão de más notícias ao som das “pombinhas da catrina” ou do “malhão malhão”.

Em casa preparei a selecção musical ao meu gosto, aproveitando enquanto o Manel ainda não reivindica Panda e Caricas, Canções da Maria ou Xanas Toc Toc… O efeito ansiolítico da música deveria ter como prioridade os nervos de Mãe e como efeito secundário dessa felicidade nostálgica das canções antigas acreditei ser igualmente possível atingir a tão desejável alegria do Manel.

Posto isto, posso atestar que tenho andado a cantarolar a toda a hora (sempre fora do tom, mas feliz por trautear as letras e recordar tempos de infância) e o Manel também vibra contente com a Carochinha.

 

No entanto, a razão pela qual escrevo este post nada tem que ver com o meu ar de croma em cantorias, nem com a reacção do Manel (apesar de nesta altura eu até já suspeitar que a febre talvez não passe por culpa da minha desafinação constante).

Ao ouvir vezes e vezes (repito, muitas e muitas vezes em literal “viró-disco-e-toca-o –mesmo”) as músicas da Carochinha, fui interpretando as letras que antigamente me pareciam tão engraçadas e pedagógicas.

 

No entanto, à milésima vez que oiço as músicas, descubro que afinal a Carochinha vivia num gueto e nós da anterior geração éramos uns pobres de espírito que nem suspeitávamos daquele mau ambiente. Senão vejamos:

 

O João e o Manel perderam respectivamente o balão e a bola e puseram-se a choramingar. Enfim, canta-se tão só o sentimento de perda e até é estranho que o Manel  já não tivesse aprendido a lição com o João. Meninos! Mas enfim, até aqui nada de muito grave, apenas reiteradas perdas se até juntarmos aqui que eu perdi o dó da minha viola.

 

Um pouco relacionado com o sentimento de perda está o problema sucessório da Tia Anica do Loulé, a quem deixaria ela a caixinha do rapé? Em toda a canção não há qualquer referência a que a Tia seria uma querida ou qualquer boa memória da mesma. Só interessa congeminar sobre os respectivos herdeiros da velhota. Coitadinha e ainda gozam olé olá que a moda não está má! Mais respeito pelos velhinhos meninos!

 

Por outro lado, mesmo antes da Troika, os tempos eram de contenção. Verdade! Então não se recordam da linda falua que lá vem lá vem, sendo pedida a passagem ao senhor barqueiro. Como não era possível sustentar todos os filhos, não havia problema, ficava ali o filho lá da frente ou o de trás. Se isto não é alienação parental ou puro abandono, então não sei o que será! Sei que não nos aterrorizava, o que é incrível.

 

Subindo ainda mais a gravidade das mensagens destas canções, aponto o dedo à barata mentirosa. Havia necessidade de ensinar cantigas às crianças sobre mentiras de sapatos da barata?! Ao menos que a barata morresse no fim da música com DumDum para os meninos perceberem que mentir é feio. Mas nada, a barata mentirosa sai ilesa.

 

Enfim, a barata até é um ser rastejante insignificante se comparado à besta do Sebastião que tem péssimas maneiras à mesa e dá porrada na mulher! Que graça de violência doméstica que até é cantarolada! E o Sebastião nem seria o único mau exemplo lá do Gueto da Carochinha porque a vida do Malhão Malhão era comer e beber e passear na rua!

Na canção que eu amava do Singing aya iupi iupi ai, reza a história que se foi visitar a tia a Marrocos e para acompanhar se bebia um bom vinho, glup glup! Glup digo eu, engasgada a perceber que estas canções incitavam mais o álcool que qualquer ambiente de queima das fitas! E nós nem dávamos conta!! Agora já entendo porque gosto tanto de um bom tinto, ficou-me no subconsciente desde pequena a história do vinho.

 

Também me consumo (sem álcool, só de juízo)  a magicar por que razão se cantava o anúncio matrimonial da solteirona da Carochinha. Se era rica e bonitinha, porque ninguém a tinha desencalhado antes? Também seria bêbada como o Sebastião ou seria apenas mau feitio? Algum defeito grave deveria ter pois a moça é logo despachada a um tipo de nome João Ratão, o que indicia a falta de critérios de selecção e/ou fraco leque de candidatos.

 

As galinhas essas, todos cantamos que andam doidas e o galo todo emproado com um ar majestoso. Estranho é perceber noutra música que o galo, tão bom cantor, houve um dia que não cantou, nunca mais se tendo ouvido  cocoró cocoró! Eu cá não sou de intrigas, mas ou (i) o galo não era assim tão majestoso e se pôs a milhas por não ter estofo para aturar tanta galinha, ou (ii) as galinhas se fartaram do seu ar emproado e lhe fizeram a folha, ou (iii) o Tio Manel que tinha uma quinta fez cabidela do galo. Portanto, ou temos a reportar um desaparecimento misterioso a constar dos anúncios da PJ ou então devemos tão só dar baixa do galo por homicídio. Já o gato a quem lhe atiraram o pau teve mais sorte e não morreu.

 

Por fim, ainda consumo o resto do meu juízo (que prefiro esta noite ocupar propositadamente nestas parvoíces para não pensar em problemas graves) a lamentar a falta de pedagogia destas canções que eu escolhi em detrimento do Panda que está sempre a ir à escola ou da Maria que canta estar a aprender a ler. Então não se lembram da Ana Faria e Queijjinhos Frescos cantarem :

- Onde “tás”  ò “Zei”?

-  Estou no balancé,

- E o que fizeste ao “i”?

- Tirei-o do “Lete” e pus no “cafei”.

Era isto que nós aprendíamos sobre as letras! Que coisa esperta!  E a Maria Vasconcelos até consegue ensinar vogais e ditongos ao passo que a Ana Faria devia era ser processada!

 

Fico mesmo feliz  e aliviada por não nos termos tornado numa cambada de bêbados, mentirosos, criminosos, ambiciosos de heranças, iletrados.

De qualquer forma, há qualquer coisa de mágico e posso garantir que, mesmo após estas descobertas doidivanas, continuo a adorar as canções da Carochinha!

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1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 08.11.2013 às 01:08

http://www.youtube.com/watch?v=sfxQaQS81Bw&list=PLB5347800E0DDD723

http://www.youtube.com/watch?v=xlVYvflls0Q&list=PLB5347800E0DDD723

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